Artista cubano que passou 5 anos preso fala à BBC sobre luta e exílio
Artista cubano passa 5 anos preso e fala à BBC sobre luta

Luis Manuel Otero Alcántara caminha pelas ruas de Miami, nos Estados Unidos, com uma sensação estranha: ninguém o detém, nem o vigia. O artista cubano de 38 anos é um dos principais dissidentes da ilha. Ele começou recentemente sua vida no exílio, depois de cumprir no país uma sentença de cinco anos de prisão por desrespeito aos símbolos da pátria, desacato e distúrbios públicos.

Otero Alcántara não se sentia realmente livre há muito mais tempo. Ele foi levado em 2021 para a prisão de segurança máxima de Guanajay, a cerca de 30 km a oeste de Havana, mas já havia passado por anos de vigilância permanente, dezenas de prisões e noites de calabouço por suas manifestações artísticas contra o regime cubano.

Os cinco anos de prisão

O artista é um dos fundadores do Movimento San Isidro, um coletivo de artistas e ativistas de oposição ao governo de Cuba. Ele transformou a arte da performance em arma para desafiar o poder. Carregou por um mês a bandeira cubana como parte de uma de suas obras, criou o Museu da Dissidência e protagonizou greves de fome. Suas ações o transformaram na principal figura não partidária da oposição cubana e uma das maiores dores de cabeça do presidente Miguel Díaz-Canel.

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Sua última prisão ocorreu durante os históricos protestos contra o governo de Cuba em julho de 2021. O julgamento a portas fechadas, um ano depois, e suas greves de fome nos cinco anos que passou atrás das grades chamaram a atenção de organizações de defesa dos direitos humanos, artistas, intelectuais e governos democráticos. A Anistia Internacional declarou Otero Alcántara como prisioneiro de consciência e a revista Time o incluiu na sua lista anual das 100 pessoas mais influentes do mundo.

A arte como resistência

Na prisão, Otero Alcántara continuou criando. Em entrevista à BBC News Mundo, ele explicou: “Criei uma obra na qual eu vendia cada um dos dias dos meus cinco anos preso. Quem comprava, recebia um fragmento de almanaque e uma espécie de contrato. A arte me ajudava a me manter ativo.” Ele também fez cerca de seis ou sete greves de fome, uma delas de 48 dias. Quando tentavam pressioná-lo, protestava. “Na última vez, havia muito pouca luz, mas pintei uma série de militares frustrados e rasgados. Eles confiscaram minhas obras, mas nunca mais me levaram para lá.”

Ele conseguiu tirar de Cuba cerca de 4 mil pinturas. “Quero fazer um evento e desenrolar todas estas obras, para que as pessoas possam sentir o cheiro da prisão que elas trazem consigo”, disse.

A vida no cárcere

Na cela de segurança máxima, em Guanajay, viviam quatro pessoas em um espaço de cerca de quatro metros por três, com quatro camas de cimento e um banheiro sem porta. “Você mesmo colocava uma cortina, mas a intimidade era completamente inexistente. Às vezes, você sentia que não conseguia respirar, devido à ansiedade, à depressão e ao confinamento”, relatou.

O artista reconhece que sua fama trouxe certos privilégios, mas também maior vigilância. “No meu corredor, eles davam um pouco mais de comida porque ali ficavam os condenados à prisão perpétua. E a Segurança do Estado queria me manter relativamente tranquilo, pintando sem protestar. Mas não recebi as reduções de pena habituais. E houve uma época em que não podia falar com ninguém.”

Ele também refletiu sobre a relação com os guardas: “Descobri que, de diferentes formas, todos éramos vítimas de uma cúpula que mantém o país sequestrado. Muitos guardas eram jovens de 20 ou 21 anos, procedentes de regiões muito pobres.”

O exílio e o futuro

Após cumprir sua condenação, as autoridades cubanas condicionaram sua libertação ao exílio. Os Estados Unidos concederam a ele um visto humanitário e a Embaixada americana em Havana possibilitou sua viagem a Miami, onde chegou em 18 de julho. Sobre o exílio, ele afirma: “É extremamente cruel. Não posso ver meu filho, nem participar da sua vida. O exílio é outra forma de violência política.”

Agora, ele planeja continuar sua luta: “Cada minuto da minha vida será dedicado a libertar Cuba daquela torturante ditadura. Quero fazer isso conectando o projeto cultural cubano ao mundo e aprendendo a conviver com a diversidade própria da democracia.”

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