Menina de 17 anos sobrevive à travessia em Ceuta; irmão morre afogado
Menina sobrevive à travessia em Ceuta; irmão morre

Uma adolescente de 17 anos, natural de Tânger, conseguiu chegar à Espanha após atravessar a nado o quebra-mar que separa Marrocos do enclave espanhol de Ceuta, mas perdeu o irmão de 8 anos, que morreu afogado no Mediterrâneo. A mãe desapareceu no meio do caos, quando dezenas de milhares de pessoas tentavam deixar o Marrocos. A jovem, que não teve a identidade revelada por ser menor de idade e estar em situação de vulnerabilidade, contou sua história a um fotojornalista da Associated Press (AP).

Uma travessia marcada pela tragédia

Na última quinta-feira (30), a adolescente e sua família se juntaram à multidão que tentou contornar a nado uma cerca de fronteira para chegar ao território espanhol. Como muitos outros, buscavam melhores oportunidades. Ela relatou ter visto policiais espanhóis retirarem da água o corpo do irmão, de 8 anos. Após chegar à costa, separou-se da mãe e passou os quatro dias seguintes sozinha.

Segundo o relato, moradores locais deram-lhe comida e roupas, e uma mulher a acolheu em casa para que pudesse tomar banho. Depois, procurou ajuda em um centro governamental para jovens, mas a unidade estava lotada. "Vi pessoas pisando em corpos", disse, por meio de um tradutor, já que não fala espanhol. "Agora somos crianças pedindo esmola nas ruas."

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Menores em situação de vulnerabilidade

Ela é uma das cerca de 860 crianças e adolescentes que permaneciam em Ceuta nesta segunda-feira (3) após a travessia, segundo autoridades locais. Jornalistas da AP viram outros menores pedindo comida. Esses menores representam uma parcela significativa dos 3 mil a 5 mil migrantes que evitaram a expulsão de Ceuta, entre os cerca de 60 mil que chegaram ao enclave espanhol.

As autoridades espanholas confirmaram 72 mortes durante a travessia, a maioria no mar. O Ministério do Interior da Espanha informou que o Marrocos registrou outras 11 mortes, que não estão incluídas no total espanhol.

Proteção legal para menores

Pela legislação espanhola, migrantes adultos podem solicitar asilo. Caso o pedido seja negado, ficam sujeitos a procedimentos de expulsão. Em geral, é difícil que marroquinos obtenham proteção humanitária. Já menores desacompanhados de adultos devem receber proteção e assistência das autoridades espanholas.

Um jornalista da AP presenciou soldados espanhóis escoltando um menino marroquino desacompanhado que chorava e implorava para não ser enviado de volta ao Marrocos. A poucos metros da fronteira, diante da pressão de moradores que afirmavam que ele era menor de idade e da presença da imprensa, um tenente-coronel do Exército espanhol interrompeu a repatriação e transferiu o garoto para a Guarda Civil.

Centro de acolhimento lotado e escassez de alimentos

A maioria dos adultos marroquinos voltou voluntariamente para casa ou foi devolvida à força pela polícia espanhola. Entre os que continuam em Ceuta há grupos significativos de pessoas de outros países, incluindo sudaneses que fugiram da guerra em seu país, palestinos da Faixa de Gaza, afegãos e migrantes de várias nações africanas.

O centro de acolhimento para migrantes da cidade, com capacidade para 600 pessoas, está completamente lotado. Segundo a AP, há escassez de alimentos entre os migrantes. "A estratégia é que a fome, a sede e o cansaço façam essas pessoas decidir retornar voluntariamente ao Marrocos", afirmou o ativista de migração Ramsés Mohamed Azumik, da associação Elín.

Muitos migrantes dormem ou descansam na praia e nas colinas que cercam o pequeno território espanhol. Ao longe, do outro lado do mar, está a Europa continental, destino final almejado por grande parte deles.

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