A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o lenacapavir injetável como profilaxia pré-exposição (PrEP) ao HIV. O medicamento, aplicado a cada seis meses, representa uma alternativa aos comprimidos diários, que muitas vezes são abandonados por problemas de adesão.
O desafio da adesão à PrEP oral
Para uma jovem saudável na África do Sul, o principal risco de contrair HIV pode vir justamente de alguém em quem confia, mas não pode verificar a situação sorológica. A PrEP oral, com comprimidos diários de antirretrovirais, é eficaz desde que tomada consistentemente. No entanto, como explica Salim Abdool Karim, diretor do Centro para o Programa de Pesquisa em Aids da África do Sul, 'você está pedindo que pessoas saudáveis, que não têm nenhuma doença, tomem um comprimido todos os dias. Essa é uma exigência enorme.'
Estudos mostram que, por volta do terceiro mês de uso, metade dos pacientes abandona a PrEP oral. 'No fim do ano, resta apenas um pequeno grupo que continua tomando', afirma Karim. Fatores como esquecimento, efeitos colaterais, estigma e dificuldade de acesso às doses contribuem para a baixa adesão.
Como o lenacapavir funciona
O lenacapavir atua de forma inovadora: é o primeiro medicamento para PrEP a atingir o capsídeo do HIV, uma estrutura em forma de cone que protege o material genético viral. 'É a molécula mais potente que conhecemos contra o HIV', diz Wesley Sundquist, bioquímico da Universidade de Utah. A longa meia-vida do fármaco permite que uma única injeção mantenha níveis protetores por seis meses, eliminando a necessidade de doses diárias.
Para Abdool Karim, 'é infinitamente mais fácil do que lembrar de tomar um comprimido todos os dias'. A adesão é praticamente completa quando as injeções são administradas regularmente. No entanto, o custo ainda é elevado em algumas regiões, e o acesso permanece restrito.
Grupos prioritários e distribuição
Três grupos são prioritários para o uso do lenacapavir: meninas adolescentes e mulheres jovens em partes da África, jovens homens gays no Ocidente e comunidades gays vulneráveis no Leste Europeu e na Ásia Central. Na África do Sul, a distribuição começou em junho de 2026, apoiada por um acordo entre a Gilead (desenvolvedora) e o Global Fund. A empresa concordou em fornecer o medicamento sem lucro para até 2 milhões de pessoas por três anos. Em outubro de 2024, a Gilead autorizou a produção de versões genéricas em 120 países com altas taxas de HIV.
No entanto, alguns países latino-americanos, como Brasil, México, Peru e Argentina, foram excluídos das iniciativas de distribuição, apesar de terem participado dos ensaios clínicos. Melissa Scharwey, da Médicos Sem Fronteiras, alerta: 'Não há nem de longe quantidade suficiente'. Ela pede que a Gilead venda diretamente à MSF por cerca de 40 dólares por aplicação.
Impacto e limitações
Modelos da epidemiologista Monisha Sharma, da Universidade de Washington, indicam que fornecer lenacapavir para 2% a 4% da população adulta de alto risco no sul da África poderia evitar 12% a 18% das novas infecções em dez anos. 'O lenacapavir pode acelerar substancialmente o progresso, mas é improvável que elimine a transmissão do HIV por si só', afirma Sharma. 'Isso depende de preços acessíveis, canais eficientes de distribuição e direcionamento correto.'
Abdool Karim reforça a preocupação principal: 'As pessoas com maior risco precisam ir atrás da medicação. Muitas vezes, quem corre maior risco não se percebe em risco. Se não conseguirmos alcançar essas pessoas, não vamos conseguir reduzir esta epidemia da forma que esperávamos.' O lenacapavir resolve o problema de adesão, mas não o de identificar e alcançar os mais vulneráveis.



