Brasil e México disputam origem do vira-lata caramelo, símbolo nacional
Disputa Brasil-México sobre origem do vira-lata caramelo

RIO DE JANEIRO — Os cachorros de cor caramelo que perambulam pelo Brasil aos milhões podem parecer heróis nacionais improváveis. Entre os brasileiros, porém, eles inspiram tanto orgulho quanto o futebol e o samba.

Conhecidos simplesmente como “caramelos” por causa da pelagem amarelada, os cães de rua são celebrados em memes brasileiros, estampados em camisetas, citados em músicas virais e homenageados em carros alegóricos de Carnaval. Eles até estrelaram um filme da Netflix no ano passado e quase chegaram a aparecer na moeda brasileira.

México declara caramelo como raça nativa

Mas agora as autoridades do México, outro país latino-americano onde a reprodução descontrolada entre cães abandonados também resultou em uma enorme população de cachorros de cor castanha, classificaram o vira-lata caramelo como um tesouro mexicano, declarando-o uma raça nativa, assim como o chihuahua.

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No Brasil, a classificação ganhou manchetes recentemente e irritou brasileiros que dizem que um ícone nacional está sendo tomado deles.

“Como podem dizer que o caramelo não é brasileiro?”, questionou Luciana Valle, de 57 anos, dona de Madá, uma animada cadela resgatada de cor caramelo. “Ele é a cara do Brasil.”

Origem genética dos vira-latas

Os cães são uma mistura de quase 300 raças da Europa, da Ásia e das Américas, mostrou um estudo genético publicado no ano passado. Especialistas afirmam que a ancestralidade dos vira-latas pode ser rastreada até cães trazidos pelos colonizadores portugueses e, mais tarde, por imigrantes da Itália, Alemanha, Espanha e Japão.

Quando a industrialização levou trabalhadores rurais para as cidades brasileiras, eles trouxeram consigo cães que pastoreavam rebanhos ou protegiam fazendas. Essas raças acabaram se misturando a variedades menores mantidas como animais de estimação pelos moradores urbanos.

Essa reprodução sem controle acabou produzindo os vira-latas caramelos de hoje, afirmou Jaqueline Oliveira Rosa, geneticista da DNA Pets, laboratório brasileiro de testes genéticos, que liderou o estudo. “A história do caramelo é a história do Brasil”, disse ela.

Características e resistência

Os vira-latas caramelos podem ser vistos por todo o Brasil e frequentemente são alimentados e cuidados por moradores, tornando-se, na prática, cães da vizinhança.

Segundo especialistas, sua pelagem curta e amarelada atrai menos parasitas, ajuda a mantê-los frescos ao refletir o sol tropical e serve de camuflagem contra predadores. A mistura genética também os protege de algumas doenças hereditárias, disse Rosa. “Isso os torna incrivelmente resistentes.”

Antes rejeitados e maltratados, esses cães hoje representam a própria miscigenação e capacidade de adaptação dos brasileiros. Por isso, quando o escritório da promotoria ambiental do Estado do México, o mais populoso do país, declarou em abril o “perro caramelo” uma raça mexicana, muitos brasileiros se sentiram atingidos.

Reação dos defensores dos animais

O órgão estadual recusou um pedido de entrevista. Em seu comunicado, porém, afirmou que a classificação tinha como objetivo combater o estigma em torno dos vira-latas.

Defensores do bem-estar animal no México afirmam que os cães caramelos são tão comuns por lá quanto no Brasil, devido à história e ao clima compartilhados pelos dois países.

O reconhecimento mexicano do cachorro caramelo provavelmente foi inspirado pelo movimento brasileiro de valorização desses vira-latas, disse Claudia Edwards, diretora do programa mexicano da Humane World for Animals, organização sem fins lucrativos.

“O Brasil foi o primeiro a reconhecê-lo, a colocá-lo no mapa”, afirmou Edwards. “Os brasileiros devem sentir muito orgulho disso.”

Ela acrescentou que o vira-lata caramelo não precisa pertencer a apenas uma nação. “Ele é latino-americano!”

Projetos de lei e status de patrimônio

Em 2023, parlamentares brasileiros apresentaram um projeto de lei para conceder ao cachorro caramelo o status de patrimônio nacional, mas a proposta não avançou. Desde então, alguns estados, incluindo São Paulo, aprovaram suas próprias leis declarando-o um tesouro cultural.

Em uma manhã de domingo, a presença marcante do cachorro caramelo fica evidente no Rio de Janeiro.

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Em um parque arborizado para cães, meia dúzia de vira-latas cor de mel corria e brincava. Tiana, uma animada cadela resgatada de dois anos, com orelhas pontudas, mordiscava um galho.

“Ela é a estrela da casa”, disse Mônica Veiga, de 63 anos, revisora de livros didáticos. “Sempre quisemos adotar um vira-lata caramelo.”

Em um calçadão, Marco Yoshizawa alimentava seu vira-lata Zico, de oito anos, com a polpa de um coco recém-aberto. “Ele é um verdadeiro companheiro”, disse Yoshizawa, de 55 anos, que coleta latinhas. “Vai a todo lugar comigo.”

Desafios da adoção

Mas, mesmo tendo se tornado mascotes nacionais, muitos vira-latas caramelos continuam em abrigos, afirmou Juliana Camargo, fundadora da Ampara, a maior organização brasileira de proteção animal. “Ainda não são os primeiros a serem escolhidos para adoção”, disse.

Há mais de 20 milhões de cães abandonados no Brasil, segundo um estudo global realizado por uma coalizão de organizações de bem-estar animal. Camargo estima que mais de 90% deles sejam caramelos.

Em uma recente feira de adoção, crianças se encantavam com um trio de filhotes pretos que lembravam levemente labradores. Uma família acariciava um deles enquanto preenchia a documentação para adoção.

Poucos prestavam atenção aos cães caramelos que também buscavam um lar. Guadalupe, uma vira-lata de cor marrom-clara resgatada de uma comunidade com o mesmo nome, ofegava ansiosamente à sombra enquanto uma voluntária tentava acalmá-la.

“Estamos procurando alguém para adotá-la há um ano”, disse a voluntária Désirée Rebello, de 39 anos. “Não é tão fácil.”

Para Camargo, a esperança é que dar destaque aos vira-latas caramelos, tanto no Brasil quanto no México, convença mais pessoas a levarem um deles para casa.

“Dá uma pontinha de incômodo, porque sentimos que o caramelo é nosso”, disse ela. “Mas é por uma boa causa.”