Quem começa a organizar as finanças pessoais frequentemente se depara com uma dúvida comum: é melhor formar uma reserva de emergência ou contratar um seguro? E, para quem já possui um seguro, ainda faz sentido guardar dinheiro para imprevistos? A resposta dos especialistas é categórica: sim.
Reserva e seguro têm papéis diferentes
“Quem tem seguro ainda precisa manter uma reserva de emergência, porque cada instrumento cumpre um papel diferente no planejamento financeiro”, explica Dennys Rosini, diretor de Produtos da Prudential do Brasil. Enquanto a reserva garante liquidez imediata para despesas inesperadas do dia a dia, o seguro protege contra eventos capazes de provocar perdas financeiras muito maiores.
“Reserva financeira e seguro são duas caixinhas diferentes. Uma coisa é proteger o seu mês, a sua vida e a sua rotina. Outra coisa é proteger o seu patrimônio dos grandes riscos que existem na vida”, acrescenta Thiago Levy, diretor de parcerias financeiras da MAG Seguros.
A reserva é o primeiro passo
Os especialistas concordam que a formação da reserva de emergência costuma ser a base do planejamento financeiro. “Reserva de emergência é um valor separado para cobrir imprevistos que exigem dinheiro disponível rapidamente, como perda de renda, despesas médicas não planejadas, reparos urgentes ou necessidade de reorganização financeira da família”, detalha Rosini.
O objetivo é proteger a família de acontecimentos inesperados de curto prazo e é o primeiro passo para uma proteção financeira eficiente, corrobora Levy. Não existe um valor universal, mas a recomendação habitual é acumular entre seis meses e um ano da renda mensal. Ou seja, para uma pessoa que ganha cerca de R$ 10 mil por mês, o ideal é ter uma reserva de R$ 60 mil a R$ 100 mil. A construção desse colchão financeiro, porém, costuma ser gradual.
“Algum percentual entre 10% e 15% da renda mensal já seria um ótimo hábito para começar a formar essa reserva financeira”, diz Levy.
Onde deixar o dinheiro
Como a principal função da reserva é estar disponível quando necessário, o dinheiro deve permanecer em aplicações conservadoras e com liquidez. “Esse dinheiro deve estar em aplicações de baixo risco, alta liquidez e fácil acesso, porque a função da reserva não é buscar alta rentabilidade, mas estar disponível quando necessário”, diz Rosini.
Levy também recomenda produtos de renda fixa com possibilidade de resgate rápido. “Você nunca deve colocar a sua reserva financeira em algo de risco. A primeira reserva financeira, sem dúvida, deve ficar em uma renda fixa, com previsibilidade maior e menos flutuações”, salienta.
Quando usar a reserva?
A orientação é utilizar a reserva apenas para despesas realmente inesperadas. Entre os exemplos mais comuns estão: consertos emergenciais na casa; franquia de seguro após uma batida de carro; compra de medicamentos não previstos; redução temporária da renda; períodos de desemprego; despesas urgentes da família.
Quando o seguro entra em cena?
Se a reserva protege o curto prazo, os seguros entram para cobrir situações potencialmente devastadoras para as finanças familiares. “A reserva de emergência deixa de ser suficiente quando o impacto financeiro do imprevisto supera a capacidade da pessoa ou da família de absorver aquela despesa apenas com dinheiro guardado”, pondera Rosini.
Segundo ele, isso ocorre principalmente em casos de: doenças graves; acidentes com invalidez; perda prolongada de renda; morte do principal provedor da família; planejamento sucessório e proteção patrimonial. “São riscos capazes de comprometer o orçamento de forma significativa”, reforça.
Qual seguro ajuda em cada situação?
Desemprego ou perda temporária de renda: A primeira linha de defesa costuma ser a própria reserva de emergência. Para alguns profissionais, porém, existem seguros voltados à proteção da renda. Levy cita o seguro de Diária por Incapacidade Temporária (DIT), mais comum entre profissionais liberais, que ajuda a compensar períodos em que a pessoa fica impossibilitada de trabalhar por motivo de saúde. Rosini destaca que algumas apólices também oferecem coberturas relacionadas à perda de renda e desemprego.
Doença grave: Uma reserva financeira pode ajudar nas despesas iniciais, mas tende a ser insuficiente diante de tratamentos prolongados. “Hoje há apólices que oferecem coberturas para diferentes imprevistos, como doenças graves, acidentes, fraturas e internação hospitalar”, observa Rosini. Levy destaca as coberturas específicas para doenças graves, que podem incluir câncer, AVC, infarto, Parkinson e Alzheimer.
Acidentes: Em situações mais simples, a reserva pode cobrir gastos imediatos, como medicamentos ou franquias. Já acidentes que resultam em invalidez permanente ou afastamento prolongado do trabalho costumam exigir proteção securitária. “Uma perda de renda permanente gerada por uma invalidez por acidente é um exemplo clássico de situação em que o seguro se torna fundamental”, enfatiza Rosini.
Quanto de seguro contratar?
Ao contrário da reserva de emergência, que costuma ser calculada em meses de despesas, o capital segurado deve considerar o impacto de longo prazo sobre a família. O capital segurado é o limite máximo do valor que a seguradora pagará a você ou aos seus beneficiários caso ocorra um sinistro previsto na apólice, como falecimento, acidente ou invalidez.
Segundo Levy, para calcular o valor adequado a ser contratado, o ideal é estimar quanto tempo os dependentes precisariam para se reorganizar financeiramente. “Se eu vier a falecer, minha família precisa de quanto tempo para se reestruturar? Pelo menos dois anos. O ideal são cinco anos de renda, ou seja, cerca de 60 meses.” O cálculo pode variar conforme fatores como: número de dependentes; idade dos filhos; dívidas existentes; patrimônio acumulado; expectativa de gastos futuros, como educação.
Afinal, o que vem primeiro?
A resposta não é igual para todos. Para uma pessoa solteira, jovem e sem dependentes, os especialistas dão prioridade à formação da reserva. “Para uma pessoa de 35 anos, por exemplo, a reserva de emergência costuma ser mais importante, porque ela tem mais chance de enfrentar uma queda de renda ou desemprego do que um evento extremo”, avalia Levy.
Já em famílias com filhos, dependentes financeiros ou apenas um provedor de renda, a lógica pode mudar. “Esperar acumular uma grande reserva antes de contratar qualquer proteção pode deixar a pessoa e sua família expostas a riscos maiores”, alerta Rosini. Levy acrescenta que mesmo seguros básicos podem ser relativamente acessíveis: “às vezes, com R$ 20, R$ 30, R$ 40 ou R$ 50 por mês já é possível contratar uma cobertura inicial para morte ou acidentes.”



