O mês de julho foi marcado por ajustes nos mercados internacionais, especialmente nos Estados Unidos, onde a guerra no Irã disputou espaço com uma reavaliação dos investimentos em inteligência artificial (IA) e uma atenção redobrada ao cenário macroeconômico, principalmente à taxa de juros básica. A forte alta das ações de tecnologia no segundo trimestre levou a uma realização de lucros no início do mês passado e a questionamentos sobre o potencial de retorno dessas empresas.
Desempenho dos índices em julho
Como reflexo desse ajuste, o índice S&P 500 fechou julho em queda de 0,1%, enquanto o Nasdaq recuou 3,2%, reduzindo as altas no ano para 11% e 11,5%, respectivamente. No Brasil, o índice de recibos de ações estrangeiras (BDRs) negociados na B3, o BDRX, encerrou julho em queda de 2,0%, reduzindo a alta no ano para 3,9%.
"O mercado parou de perguntar se existe demanda por IA e passou a perguntar quando o dinheiro investido nela volta", diz a Genial Investimentos em relatório. "O ciclo de IA entrou em uma etapa diferente", explica a Empiricus Research. "Os investimentos continuam crescendo, mas os investidores querem saber quando essa infraestrutura aparecerá em receita, margens e fluxo de caixa", acrescenta a consultoria, lembrando que o investimento de Alphabet, Amazon, Microsoft, Meta e Oracle saltou de US$ 95 bilhões ao ano em 2020 para US$ 490 bilhões nos 12 meses encerrados em maio de 2026.
Impactos na cadeia de semicondutores
Como resultado, o grupo de semicondutores acumulou queda de 20% desde o pico de junho e, na Bolsa da Coreia do Sul, o Índice Kospi perdeu 11% em um dia, puxado por duas das maiores fabricantes de memória do mundo, destaca a Genial. Já o BDR da Micron, vista como referencial para o mercado de memórias e semicondutores, fechou o mês em queda de 30%. Além disso, o spread dos empréstimos pagos pelas empresas que financiam a infraestrutura de IA subiu de 1,18 ponto porcentual para 1,50 ponto acima do juro do título do Tesouro americano, que também subiu, atingindo o nível mais alto desde 2007 para o prazo de 30 anos.
Recomendações das corretoras para agosto
As principais indicações de ações internacionais das corretoras para agosto mostram a tentativa de capturar as oportunidades que surgiram após a realização de lucros de julho e, ao mesmo tempo, de diversificar os riscos diante da continuidade da incerteza com a guerra do Irã e com a possibilidade de o Federal Reserve, o banco central americano, subir os juros em sua reunião de setembro.
Não por acaso, a Micron, depois do tombo, é a segunda mais indicada no mês e, fora da lista da IA, aparecem a Eli Lilly e a ExxonMobil. Confira as recomendações e o desempenho das mais indicadas:
- Amazon (AMZO34): 5 indicações, +11,1% em julho
- Micron Technology (MUTC34): 5 indicações, -30,0%
- Apple (AAPL34): 4 indicações, +5,3%
- Alphabet (GOGL34): 4 indicações, -1,8%
- Eli Lilly (LILY34): 4 indicações, -6,2%
- Microsoft (MSFT34): 4 indicações, +22,5%
- Nvidia (NVDC34): 4 indicações, -1,3%
- TSMC (TSMC34): 4 indicações, -16,4%
- ExxonMobil (EXXO34): 3 indicações, +9,3%
Fonte: BTG Pactual, Empiricus Research, Genial Investimentos, Itaú BBA, Santander Brasil, Terra Investimentos, XP Investimentos e Economatica. Rentabilidade dos BDRs negociados na B3.
A XP Investimentos, por exemplo, depois da forte venda generalizada em inteligência artificial em julho, aproveitou a forte queda de Micron para entrar no segmento de memória. "Seguimos construtivos com hyperscalers, mas vemos um momento tático bom para memória", diz a XP.
Análise das principais recomendações
Amazon (AMZO34)
O Santander Brasil lembra que a Amazon não se resume ao varejo digital, segmento em que conta com 38% do mercado dos Estados Unidos. A companhia tem negócios promissores e complementares com grande potencial de crescimento, como streaming e, especialmente, o de computação em nuvem, segmento em que é líder de mercado.
Micron Technology (MUTC34)
Para o BTG Pactual, a fabricante de memória deve se beneficiar de um ciclo favorável para esse mercado, que deve continuar com demanda acima da oferta no médio prazo. Segundo o banco, o preço das memórias acumula alta de seis vezes em menos de cinco meses, enquanto a HBM, principal memória relacionada à demanda de IA, tem preço cerca de três vezes superior ao da memória tradicional. Para o BTG, o papel é negociado por um preço atrativo, de apenas seis vezes o lucro, descontado em relação à média histórica.
Apple (AAPL34)
A fabricante do iPhone se mantém a apenas 2,2% de sua máxima em 52 semanas enquanto o setor de tecnologia corrige, afirma a Genial Investimentos. A receita de serviços atingiu recorde no último trimestre, o que sustenta margem e reduz a dependência do ciclo de troca de aparelhos, mudança estrutural do modelo de negócio. A base instalada de mais de dois bilhões de dispositivos é o ativo que garante essa recorrência e o papel entra como componente de estabilidade da carteira, diz a Genial.
Alphabet (GOGL34)
Segundo o Santander Brasil, a empresa domina mercados-chave na internet, como o de buscas online e streaming de vídeos, com o YouTube, além de desenvolver o mais popular sistema operacional de celulares, o Android. Além disso, o seu serviço de IA, o Google Cloud, vem ganhando relevância nas receitas da companhia.
Eli Lilly (LILY34)
A Empiricus incluiu a empresa na carteira pois, além de um preço atrativo, apresenta uma sequência de gatilhos relevantes para os próximos meses, como a continuidade da liderança de Mounjaro e Zepbound, a curva de adoção do oral Foundayo e o avanço clínico da retatrutide, que já acumula dados positivos de Fase 3 e mantém a companhia no centro dos estudos sobre obesidade.
Microsoft (MSFT34)
Após resultados positivos no segundo trimestre, impulsionados pela Azure, sua principal divisão de nuvem, a empresa deu indicações positivas para o mercado, avalia a XP Investimentos. Entre as indicações estão a manutenção da projeção de investimentos, sinalizando disciplina no uso dos recursos, e uma fala otimista do diretor financeiro sobre a melhora na eficiência de conversão de custos de infraestrutura em valor ao cliente.
Nvidia (NVDC34)
O BTG Pactual diz estar otimista com os avanços recentes da IA e de modelos de linguagem, dos quais a Nvidia está se consolidando como uma das principais beneficiárias por sua participação de 90% no mercado de fornecimento de data centers. O banco cita ainda a expansão dos mercados de IA e de linguagem para setores como saúde e robótica, as atualizações anuais de arquitetura dos chips, a liderança tecnológica em GPUs para IA e o fato de a empresa possuir um ecossistema de software proprietário.
TSMC (TSMC34)
A Empiricus aumentou a participação da fabricante de chips asiática com a forte venda de julho após a empresa divulgar seus resultados do segundo trimestre, por conta do aumento da projeção de investimentos e indicações de diluição pontual das margens. Mas a empresa desempenha um papel central na cadeia de semicondutores de ponta e a queda representa uma oportunidade pela relação risco-retorno mais atrativa.
ExxonMobil (EXXO34)
A XP Investimentos reduziu a participação de Exxon em sua carteira após a performance boa nos últimos meses, com o BDR em alta de 9% em julho. A Exxon segue como a única do setor de energia na carteira da XP, com peso de 5%, após reportar recorde de produção e expectativas de normalização de efeitos não recorrentes e do ambiente do petróleo.



