A Uefa recuou da ameaça de boicote às competições da Fifa, mas a crise aberta pela proposta de venda dos direitos comerciais da Copa do Mundo e de outros torneios segue longe de um desfecho. Membros do conselho da entidade europeia se preparam para convocar uma reunião extraordinária na qual a permanência de Gianni Infantino na presidência da Fifa seria colocada em xeque. O movimento ocorre depois que a Uefa chegou a tratar publicamente a hipótese de boicotar eventos organizados pela entidade máxima do futebol como reação à ideia de comercialização dos direitos do Mundial e de outras competições.
Embora tenha havido recuo, o episódio expôs um desgaste na relação entre a Uefa e a Fifa e levantou dúvidas sobre os rumos da gestão de Infantino. A proposta, segundo reação de federações e clubes, previa a venda de receitas comerciais futuras de competições sem que a Fifa assumisse os custos ou riscos envolvidos. Esse modelo foi interpretado como uma ameaça ao equilíbrio financeiro do futebol de seleções.
Real Madrid manifesta apoio à reação europeia
O Real Madrid divulgou nota oficial neste domingo em que agradece à Uefa e a outras entidades que, na avaliação do clube, "se opuseram com firmeza e responsabilidade a este projeto". Para o clube espanhol, a postura dessas instituições protegeu o futebol "em um momento decisivo". O texto também diz que o clube "valoriza muito positivamente" o fato de a Fifa ter desistido da proposta, classificando a decisão como "uma boa notícia".
Na mesma nota, o Real Madrid defende o modelo atual do futebol de seleções. "Os clubes são a base sobre a qual se constrói o futebol de seleções e a Copa do Mundo. São eles que descobrem, formam, desenvolvem e colocam à disposição das seleções nacionais os jogadores que tornam possíveis essas grandes competições", afirma o clube. O comunicado acrescenta que o futebol de seleções e o Mundial "nunca devem ser tratados como simples ativos financeiros destinados a serem comercializados em benefício de poucos".
Convocados na última Copa reforçam argumento do clube
O Real Madrid lembrou que, na última Copa do Mundo, dez atletas do clube foram convocados para defender suas seleções. O clube cita o dado para ilustrar a dependência que as seleções nacionais têm dos clubes na formação e liberação de jogadores. Entre os convocados estava o brasileiro Vini Jr., um dos principais nomes da equipe merengue na atualidade.
Na avaliação do Real Madrid, a última edição do Mundial representou um "patrimônio que pertence às nações". A expressão é usada no comunicado para contrapor a visão de que o torneio poderia ser tratado como um produto comercial comum. O clube entende que o valor da competição está diretamente ligado à participação dos clubes, que arcam com os custos de formação dos atletas.
Nota é contundente contra venda de receitas futuras
O Real Madrid também se posicionou de maneira clara sobre o modelo de exploração comercial sugerido pela Fifa. "O Real Madrid se opõe firmemente a qualquer tentativa de vender as receitas comerciais futuras das competições sem assumir em troca nenhum de seus custos ou riscos", diz o comunicado.
A nota prossegue: "São os clubes que os suportam, e qualquer iniciativa que pretenda se apropriar das receitas futuras do futebol sem assumir as responsabilidades que as geram é inaceitável e não deve ser considerada novamente." Com essa passagem, o clube deixa claro que não aceita a separação entre a geração de receita e o custeio da atividade.
Clube relembra oposição a fundo privado na La Liga
O Real Madrid aproveitou para citar um episódio anterior que considera um precedente negativo. O clube afirma que se opôs ao comprometimento de receitas do audiovisual da La Liga espanhola "em troca da entrada de um fundo privado" na época. Para o Real, esse tipo de operação criou um "precedente que o futebol não deve repetir".
Essa referência mostra que a preocupação do clube não é pontual. A venda de receitas futuras, seja na La Liga, seja em competições de seleções, é vista como um caminho perigoso para o equilíbrio financeiro e institucional do futebol. A posição do Real Madrid, portanto, vai além do episódio específico e aponta para uma defesa do modelo tradicional de governança do esporte.
Próximos passos da crise entre Uefa e Fifa
O recuo da Uefa não significa, porém, o fim do desconforto. Conselheiros da entidade já planejam uma reunião extraordinária para discutir a gestão de Gianni Infantino. O encontro pode reacender o debate sobre a governança da Fifa e sobre os limites da atuação do seu presidente.
Enquanto a reunião não ocorre, clubes e federações seguem atentos. A manifestação do Real Madrid, ao lado da reação da Uefa, indica que a proposta de venda dos direitos comerciais da Copa do Mundo e de outros eventos encontrará resistência sempre que voltar a ser aventada.



