A convenção nacional do PT realizada neste domingo (2) oficializou a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição e encerrou oficialmente a fase de pré-campanha. O evento marcou a virada para uma estratégia eleitoral ancorada na defesa da gestão federal: em vez de apresentar promessas inéditas, Lula dedicou seu discurso à prestação de contas dos últimos quatro anos, à ampliação da aliança política e à tentativa de transformar a eleição em um referendo sobre o seu governo.
Estratégia centrada nas realizações
Ao falar para ministros, governadores, parlamentares e militantes, o presidente resumiu o tom da campanha com uma frase provocativa: “Quem fez pode prometer mais, quem não fez não tem o que prometer”. Na avaliação de Lula, os apoiadores devem usar as entregas do governo como principal argumento de convencimento. “Nós vamos para uma campanha em qualquer assunto, em qualquer estado, com qualquer governador; vocês podem ter orgulho de defender o que o governo federal fez naquele estado.”
A opção contrasta com a estratégia dos principais adversários já lançados, que concentram o discurso em críticas ao PT e na promessa de mudança. Lula evitou confrontos diretos e apresentou poucos compromissos novos. Integrantes da campanha vinham sinalizando que essa abordagem ajudaria a desviar o foco de temas sensíveis, como as polêmicas envolvendo o filho do presidente, Luís Cláudio Lula da Silva, e as investigações contra o senador Jaques Wagner (PT-BA). Ao longo do discurso, esses assuntos praticamente não foram citados.
Mulheres no centro da disputa
O eleitorado feminino recebeu atenção especial. Lula dedicou um dos trechos mais longos do discurso ao combate à violência contra a mulher e transformou a pauta em uma mensagem política direta: “O cara vai ter que escolher: ou ele vota em mim ou ele bate na mulher. Quem bate na mulher não precisa votar em mim”. O presidente também afirmou que o enfrentamento ao feminicídio “não é luta das mulheres, é luta de nós homens”.
A escolha do tema reflete a preocupação da campanha em ampliar a vantagem entre as mulheres, segmento que concentra parte importante dos eleitores independentes e demonstra maior volatilidade nas pesquisas. A dedicação ao público feminino foi interpretada por aliados como um esforço para consolidar um eleitorado visto como decisivo.
Plano de governo adiado para 16 de agosto
Apesar da oficialização da candidatura, Lula deixou a apresentação do programa de governo para o primeiro ato oficial da campanha, marcado para 16 de agosto no Estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo. “Eu vou falar de um programa de governo dia 16… espero vocês no Estádio da Vila Euclides”, convocou o presidente.
Até lá, a orientação é que a militância concentre o discurso na comparação entre as realizações do governo federal e as promessas dos adversários. O adiamento permite que a campanha defina os detalhes do programa com mais tempo, sem abrir espaço para ataques antes do início oficial da disputa.
Cinco prioridades para um eventual quarto mandato
Embora tenha deixado o programa para depois, Lula antecipou os eixos centrais de uma eventual nova gestão. Entre eles estão a reforma mais profunda da educação, uma política nacional voltada para os idosos, a ampliação dos investimentos em defesa, o desenvolvimento da cadeia de terras raras no Brasil e a aceleração de projetos em inteligência artificial e transição energética.
Na área de defesa, o presidente defendeu mais investimento em tecnologia militar e a criação de uma indústria nacional de drones. “Quero estar preparado para a paz. Quero estar preparado para que ninguém ouse se fazer de besta conosco”, afirmou. Sobre as terras raras, Lula foi enfático: “Tem muita gente metendo o dedo na nossa terra. Isso vai parar.”
Críticas ao Congresso e defesa da democracia
Em um dos momentos mais políticos do discurso, Lula voltou a criticar o avanço do Congresso sobre o Orçamento. O presidente reclamou da necessidade de vetar iniciativas parlamentares que criam universidades e disse que pretende enfrentar o debate institucional em um novo mandato. “Vai ter briga com emenda parlamentar”, avisou. Segundo ele, o presidente da República vem perdendo atribuições constitucionais e será preciso rediscutir o equilíbrio entre Executivo e Legislativo.
A defesa da democracia e a articulação da esquerda também marcaram o discurso. Lula relembrou a criação do Foro de São Paulo e afirmou que o objetivo era convencer partidos latino-americanos a buscar o poder pelas eleições, e não pela luta armada. O presidente ainda valorizou o crescimento da frente política que sustenta sua candidatura, incluindo legendas que declararam apoio fora da coligação formal. Até agora, nenhum outro candidato presidencial consolidou alianças nacionais de tamanho semelhante.
Pesquisas, inteligência artificial e desinformação
Ao comentar o cenário eleitoral, Lula tentou reduzir a ansiedade da militância em relação às pesquisas. “A guerra não começou, o campeonato não começou, mas vai começar agora”, disse. O presidente também fez referência ao papel da inteligência artificial na disputa e afirmou que a campanha responderá à desinformação com a comparação entre resultados concretos e falsidades. “Não podemos permitir que a essência da mentira, utilizada pela inteligência artificial, venha ganhar a eleição desse país. O que vai prevalecer é a entrega que nós estamos fazendo ao povo brasileiro.”
Lula reconheceu que parte do eleitorado não mudará de posição, mas defendeu que os esforços sejam concentrados em quem ainda pode ser convencido. “Tem um monte de gente que não é e que nós precisamos convencer.”
Desculpas, saúde e resistência
Na reta final, o presidente pediu desculpas pelos erros e pelas entregas que não foram concluídas, mas prometeu retomar projetos estruturantes em um novo mandato. Aos 80 anos e disputando a sétima eleição presidencial, Lula rebateu questionamentos sobre sua capacidade física: “Hoje, com 80 anos, pelo fato de ter me preparado, eu estou infinitamente melhor do que quando eu tinha 57 anos”. E completou: “Eu estou inteiraço.”



