Árbitro sofre racismo no Paulista Sub-15 e deixa jogo para registrar queixa
Árbitro sofre racismo no Paulista Sub-15 e deixa jogo

O árbitro Marcos Nunes, de 33 anos, viveu um momento marcante e doloroso no último sábado durante a partida entre Votoraty e Referência, válida pelo Campeonato Paulista Sub-15, em Votorantim. Pela primeira vez na carreira, ele foi vítima de racismo dentro de campo, ao ser chamado de "macaco" por um torcedor do time da casa. A situação ganhou repercussão nacional após o juiz acionar o protocolo antirracismo contra a própria injúria, uma atitude rara e emblemática.

O episódio de racismo

De acordo com o relato do árbitro, a ofensa ocorreu ao fim do primeiro tempo, quando a delegada da partida o informou que um torcedor havia proferido a injúria racial. Testemunhas confirmaram o ocorrido, e a Polícia Militar foi acionada, identificando o torcedor. Na volta do intervalo, Marcos Nunes sinalizou a abertura do protocolo antirracista e deixou o campo para prestar queixa na delegacia de Votorantim. O quarto árbitro assumiu o comando do segundo tempo, e a partida terminou com vitória do Referência por 3 a 0, no estádio Domênico Paolo Metidieri.

O agressor foi qualificado pelo crime de racismo, que prevê pena de dois a cinco anos de prisão, e responderá em liberdade. Marcos Nunes, em entrevista ao ge nesta terça-feira, descreveu o dia como "triste e nervoso", mas destacou o apoio recebido: "Sábado foi um dia triste e nervoso e precisei bastante da minha família. Sempre imaginei que isso poderia um dia acontecer, mas não achei que aconteceria. Hoje eu me sinto bem, pois tive muito apoio da minha família e de pessoas que eu nunca tive contato."

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Trajetória de superação

Natural de Vera Cruz, na Bahia, Marcos mudou-se para o interior de São Paulo aos 11 anos, passando a viver em Campina do Monte Alegre. Dos 12 aos 18 anos, trabalhou na lavoura, plantando laranja, batata, feijão e milho, além de ajudar o pai em serviços de jardinagem. "Aprendi a trabalhar aos meus 12 anos. Fiz um teste em um clube com 13 e não tive muito tempo para tentar ser jogador de futebol. Vim de uma família humilde. Meus pais não me obrigavam a trabalhar, mas quando fui trabalhar na roça com a minha mãe, ganhei um dinheirinho e gostei daquilo", contou.

Aos 18 anos, mudou-se para Sorocaba, onde atuou como operador de máquinas e tratores na indústria. Também foi jogador de futebol de várzea, atuando como zagueiro e volante, até decidir trocar a bola pelo apito. "A decisão para virar árbitro foi depois de uma partida de futebol. Eu estava com medo de me lesionar e queria parar de jogar futebol. Vi na arbitragem um meio de continuar no campo, sem correr o risco de me lesionar em uma entrada temerária ou em uma disputa de bola. Foi aí que descobri a paixão pela arbitragem", explicou.

Carreira e sonhos

Marcos iniciou na arbitragem aos 28 anos, após dois anos de curso, e desde 2024 atua nas categorias de base dos Campeonatos Paulistas, do sub-11 ao sub-20. Em 2026, apitou 15 jogos dessas categorias, além de atuar como assistente e quarto árbitro. Fora do futebol, ele é autônomo, com uma empresa de logística que faz entregas de alimentos, e também empreende no ramo de brinquedos com um primo.

Seus sonhos são realistas, mas ambiciosos: "O sonho de todo o árbitro é estar na televisão, apitar um Brasileiro, uma Copa do Brasil, Libertadores, uma Copa do Mundo. E o meu não é diferente, porém já sou um árbitro de 33 anos. Creio que tenho uma idade avançada para galgar sonhos assim, mas tenho vontades. Meu sonho é apitar um jogo profissional, independentemente de qual série. Meu objetivo é estar bem fisicamente e me afirmar na arbitragem. Sou novo na federação: tenho só dois anos de FPF. É deixar fluir que as oportunidades vão aparecendo", afirmou.

Atitude e impacto

O caso de racismo contra Marcos Nunes gerou comoção e reações. O árbitro usou as redes sociais para se manifestar e reforçar a importância de denunciar. "Denunciar este ato dá força para que outros tomem coragem e denunciem esse crime nojento que pessoas sem escrúpulos cometem", completou. A atitude do juiz, ao acionar o protocolo antirracismo, é vista como um exemplo de coragem e cidadania, incentivando outras vítimas a não se calarem diante do preconceito.

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O protocolo antirracista, criado para combater casos de racismo no futebol, foi acionado pela primeira vez em uma partida do Paulista Sub-15, evidenciando a necessidade de medidas efetivas contra a discriminação nos estádios. A Federação Paulista de Futebol (FPF) ainda não se pronunciou oficialmente sobre o caso, mas a expectativa é de que o episódio seja investigado e medidas disciplinares sejam tomadas contra o torcedor identificado.