Sam Raimi, o cineasta que redefiniu o terror com a franquia Evil Dead e levou o Homem-Aranha às telas com sucesso estrondoso, está de volta às manchetes com seu mais novo filme, 'Socorro' (título original: Don't Move). No entanto, a obra, que estreia na Netflix, revela mais do que sustos: expõe a posição ambígua que Raimi ocupa na indústria cinematográfica atual — um limbo entre o prestígio de autor e a lógica comercial dos estúdios.
O retorno de um mestre do terror
Raimi, de 64 anos, construiu uma carreira marcada por uma assinatura visual inconfundível, com câmeras aceleradas, ângulos expressionistas e um humor negro que equilibra o pavor. Seu nome é sinônimo de inovação no gênero, desde o clássico de 1981 The Evil Dead, que rodou com orçamento mínimo e se tornou cult, até a trilogia Homem-Aranha (2002-2007), que arrecadou mais de US$ 2,5 bilhões mundialmente e pavimentou o caminho para o atual domínio dos filmes de super-heróis.
Depois de um hiato de quase uma década longe das câmeras — dedicando-se à produção e a projetos menores —, Raimi voltou em 2022 com Doutor Estranho no Multiverso da Loucura, da Marvel. O filme foi um sucesso de bilheteria (US$ 955 milhões), mas dividiu críticos, que apontaram a falta de ousadia diante das amarras do estúdio. Agora, com 'Socorro', Raimi parece tentar reconquistar seu espaço como autor do gênero, mas o resultado é um misto de acertos e contradições.
'Socorro': um thriller de sobrevivência com alma clássica
O filme, dirigido por Adam Schindler e Brian Netto, com produção de Raimi, acompanha uma mulher (interpretada por Kelsey Asbille) que, após ser envenenada por um assassino em série (Finn Wittrock), precisa correr contra o tempo enquanto seu corpo paralisa gradualmente. A trama é um suspense de alta tensão, com uma premissa que remete aos melhores momentos do gênero — e aí reside a conexão com Raimi.
Apesar de não dirigir, Raimi imprime sua marca na produção: o uso de planos subjetivos, a câmera que parece perseguir a protagonista e a tensão crescente que culmina em um clímax visceral. A crítica tem elogiado a atuação de Asbille e a direção sóbria, mas o filme não escapa de comparativos com obras anteriores do próprio produtor, como Arraste-me para o Inferno (2009), que equilibrava terror e comédia com mais precisão.
O limbo de Hollywood: entre o blockbuster e o autorismo
O que 'Socorro' evidencia é a dificuldade de Raimi em encontrar um lugar estável na Hollywood contemporânea. De um lado, ele é um nome com capital comercial comprovado — os estúdios confiam em sua capacidade de entregar bilheterias. De outro, sua veia autoral, que o tornou ídolo do terror, é frequentemente cerceada em projetos de grande orçamento, como aconteceu em Doutor Estranho 2, onde a Marvel impôs limites à sua criatividade.
Segundo o crítico de cinema Pedro Henrique Cardoso, do site Cine Set, "Raimi é um dos poucos diretores que transitam entre o cinema de gênero e o mainstream, mas essa dualidade cobra um preço. Ele não é mais o jovem rebelde que fazia filmes com os amigos, nem um artesão totalmente submisso às regras dos estúdios. Ele está no meio do caminho, e isso se reflete em escolhas de projetos que ora agradam ao público, ora à crítica, mas raramente a ambos plenamente".
Essa indefinição também se manifesta na indústria: Raimi não é mais o nome quente para franquias de super-heróis (o posto foi ocupado por diretores como James Gunn e Taika Waititi), mas também não é um autor reverenciado como Guillermo del Toro ou Ari Aster. Ele permanece em um limbo, com projetos que são 'seguros' demais para serem memoráveis e 'pessoais' demais para serem blockbusters.
Impacto na carreira e no gênero
'Socorro' pode não ser um divisor de águas, mas reafirma a relevância de Raimi como produtor e curador de talentos. Ao apostar em jovens diretores e em histórias originais, ele contribui para a renovação do terror, um gênero que vive uma nova era de ouro no streaming. A Netflix, que tem investido pesado em filmes de gênero, encontrou em Raimi um nome de peso para atrair assinantes.
Para o público brasileiro, a estreia de 'Socorro' na plataforma é uma oportunidade de revisitar a estética raimiana, ainda que indiretamente. O filme já está disponível e tem gerado discussões nas redes sociais, com muitos espectadores destacando a tensão insuportável e a performance de Kelsey Asbille. No Rotten Tomatoes, o filme possui aprovação de 87% da crítica, um número respeitável para um thriller de suspense.
O que esperar de Sam Raimi?
Enquanto o diretor não anuncia seus próximos passos — especula-se que ele possa voltar a comandar um longa de terror original ou até mesmo uma nova adaptação de quadrinhos —, 'Socorro' serve como um lembrete de que Sam Raimi ainda tem muito a oferecer ao cinema. Seu talento para criar imagens memoráveis e sustentar a tensão é inegável, mas a indústria precisa decidir se o quer como artesão ou como autor.
No fim, o limbo de Raimi é também o limbo de Hollywood, que muitas vezes não sabe como lidar com cineastas que não se encaixam nos moldes atuais. Enquanto isso, resta ao público aproveitar o que ele entrega: filmes que, mesmo imperfeitos, carregam a assinatura de alguém que entende o poder do cinema de gênero.



