A diretora argentina Lucrecia Martel, uma das vozes mais contundentes do cinema latino-americano, usou a apresentação de seu novo documentário, Nossa terra, no Rio de Janeiro, para provocar seu país a encarar o racismo estrutural que, segundo ela, é visível em cada esquina. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, a cineasta afirmou que a Argentina precisa admitir sua dívida histórica com os povos indígenas, tema central do filme que retrata a morte de um líder indígena.
Uma provocação necessária
“Basta andar na rua para ver. O racismo está ali, na forma como tratamos o outro, na invisibilidade que impomos a quem não se encaixa no padrão europeu que nos foi vendido”, disparou Martel, durante passagem pelo Rio em julho. A declaração ecoa a tese do documentário, que investiga as circunstâncias da morte de um líder da etnia wichí, ocorrida em circunstâncias ainda não esclarecidas.
Para a diretora, o caso é sintomático de uma sociedade que historicamente negou a contribuição indígena e afrodescendente. “A Argentina se construiu sobre o mito da nação branca e europeia. Isso não é apenas um erro histórico, é uma violência cotidiana que se manifesta em políticas públicas, na mídia e nas relações sociais”, completou.
Crítica ao governo Milei
Em tom ainda mais ácido, Martel criticou o governo de Javier Milei, presidente argentino desde dezembro. “O atual governo ataca espaços onde se trocam ideias, como universidades e centros de pesquisa. É um projeto de silenciamento que afeta diretamente a produção cultural e científica”, afirmou. A diretora relacionou a política de cortes orçamentários à perpetuação de desigualdades.
“Quando se desmonta o sistema público de educação e cultura, quem sofre são os mais vulneráveis. O racismo e a exclusão se fortalecem quando o Estado se ausenta”, disse. Martel também mencionou a recente decisão do governo de retirar o termo “povos indígenas” de documentos oficiais, medida que classificou como “um retrocesso inaceitável”.
O documentário e a memória
Nossa terra parte de um caso específico para traçar um panorama das violações de direitos humanos contra comunidades indígenas na Argentina. O filme, que teve pré-estreia no Festival de Cinema do Rio, combina imagens de arquivo, depoimentos de lideranças e a narrativa da própria diretora.
“Não é um filme sobre o passado. É sobre o presente, sobre como a morte de um líder indígena continua sendo tratada com indiferença. A impunidade é a regra”, destacou Martel. A obra deve chegar aos cinemas argentinos ainda este ano, mas já provoca debates em festivais internacionais.
Reações e contexto
A fala de Martel ocorre em um momento de tensão na Argentina, onde organizações indígenas denunciam aumento de conflitos por terra e falta de acesso a serviços básicos. Segundo dados da ONU, cerca de 40% da população indígena do país vive em situação de pobreza, número que contrasta com a média nacional de 36%.
O governo Milei, por sua vez, nega acusações de racismo e afirma que suas políticas visam “igualdade perante a lei”. Em nota, a Secretaria de Direitos Humanos da Argentina não comentou as declarações da diretora, mas reafirmou “compromisso com os direitos de todos os argentinos”.
Legado de uma cineasta
Lucrecia Martel, conhecida por filmes como O Pântano e Zama, é considerada uma das principais referências do chamado Novo Cinema Argentino. Sua obra sempre explorou tensões sociais e a hipocrisia das classes médias, mas é a primeira vez que se dedica diretamente à questão indígena.
“Sempre estive interessada no que não é dito, no que é escondido. A morte desse líder é uma dessas histórias que a Argentina prefere não contar”, concluiu. Com Nossa terra, Martel transforma o luto em denúncia e convida o país a olhar para si mesmo sem filtros.



