Ilha que recebeu navios na COP30 vive abandono após evento
Ilha que recebeu navios na COP30 vive abandono após evento

Seis meses após a realização da COP30 em Belém, a Ilha de Cotijuba, que serviu de atracadouro para navios de cruzeiro durante a conferência climática da ONU, vive um cenário de abandono. Estruturas montadas às pressas para receber os visitantes internacionais se degradam sem manutenção, e a promessa de transformar o local em um polo turístico permanente não saiu do papel.

Uso durante o evento

Durante a COP30, que ocorreu em novembro de 2025, a ilha foi uma das portas de entrada para delegados e turistas que chegaram a Belém por cruzeiros fluviais. Para isso, foram construídas passarelas de madeira, um píer temporário, tendas de recepção e um centro de visitantes. As obras foram realizadas com investimento público e privado, com a justificativa de que ficariam como legado para a comunidade.

Na prática, o que se observa meses depois é a deterioração progressiva. As passarelas apresentam tábuas soltas, o piso flutuante do píer está danificado e a pintura já descascou. O centro de visitantes, que abrigou exposições sobre a Amazônia, permanece fechado e sem data para reabertura. A sinalização turística, que guiava os passageiros até as praias e trilhas, foi parcialmente vandalizada ou levada.

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Impacto sobre moradores e comerciantes

A ausência de manutenção atinge diretamente os moradores, que dependem do transporte fluvial para se deslocar à capital. Durante o evento, a frota de barcos foi reforçada e os horários ampliados. A promessa era de que esse aumento seria mantido para facilitar o acesso e estimular o turismo. No entanto, logo após o término da conferência, a oferta de horários foi reduzida, retomando o padrão anterior. A comunidade se queixa de que a melhoria foi apenas temporária.

Pequenos comerciantes, que se prepararam para um fluxo contínuo de visitantes, também relatam prejuízos. Quiosques foram construídos com recursos próprios para atender os turistas, mas o movimento não se sustentou. A maioria está fechada, e os que continuam abertos enfrentam queda nas vendas.

Infraestrutura básica permanece deficitária

A ilha ainda não dispõe de saneamento básico em toda a sua extensão. Durante a COP30, a prefeitura de Belém instalou um sistema de tratamento de água temporário para atender a demanda do evento. O equipamento, no entanto, já apresenta problemas e não há manutenção garantida. O lixo produzido pelos visitantes durante as escalas, segundo relatos, não foi totalmente recolhido.

Além disso, a ilha não tem posto de saúde, e os moradores precisam se deslocar de barco para Belém em busca de atendimento médico. A falta de investimentos em infraestrutura básica é apontada como um dos principais gargalos para o desenvolvimento local.

Promessas e o que dizem as autoridades

O governo do Pará chegou a anunciar, durante a COP30, um plano para integrar as ilhas da Grande Belém ao circuito turístico da região. Entre as medidas, estavam a construção de um novo atracadouro em Cotijuba, a recuperação de trilhas e a criação de uma unidade de conservação. Até agora, não houve avanço visível nas obras.

Em nota, a Secretaria de Turismo do Pará informou que as estruturas temporárias foram, de fato, desmontadas, e que o órgão está elaborando um diagnóstico das necessidades da ilha. A prefeitura de Belém, por sua vez, disse que a manutenção das instalações era parte do contrato com a empresa que forneceu os equipamentos e que, após o término, a responsabilidade passaria ao estado. Enquanto os dois entes discutem, a população local continua sem respostas.

Lição para eventos futuros

O caso de Cotijuba é um exemplo dos desafios deixados por grandes conferências internacionais. Especialistas apontam que é necessário garantir recursos e um plano de continuidade antes da realização do evento, e não apenas no pós-evento. A expectativa de que o turismo geraria renda e melhorias de forma espontânea não se concretizou.

Para os moradores, o legado material é insignificante diante das promessas não cumpridas. A ilha, que antes da COP30 já sofria com a falta de investimentos, agora vê as estruturas da conferência se tornarem mais um problema. O discurso de desenvolvimento sustentável, tão presente na conferência, não se traduziu em ações concretas para essa comunidade ribeirinha.

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