A Ambipar declarou este mês na Justiça dos Estados Unidos que a sede de suas operações no Brasil fica em São Paulo. O tema é polêmico, porque para o Judiciário brasileiro, a empresa afirmou que a sede fica no Rio de Janeiro, cidade na qual pediu a recuperação judicial em outubro do ano passado.
Documento enviado ao Texas contradiz versão brasileira
Em documentos enviados na semana passada para a Justiça do Texas, onde corre o Chapter 11 – o equivalente nos EUA à recuperação judicial –, a Ambipar afirma que a “atividade operacional primária” da empresa é localizada em São Paulo. “O escritório de São Paulo mantém funcionários responsáveis por assuntos operacionais, incluindo a alta administração, bem como a estratégia de negócios do grupo Ambipar”, afirma a empresa no documento, ressaltando ainda que as áreas principais de recursos humanos, tecnologia da informação e jurídica também estão localizados na cidade.
Entretanto, quando pediu a recuperação em outubro, a Ambipar escolheu o Rio de Janeiro, alegando ser a região de maior atividade do negócio.
Credores questionaram a localização e tribunal manteve o Rio
A estratégia foi questionada por credores, que argumentavam que o processo deveria correr em São Paulo, onde defendiam ser o principal centro decisório e estratégico do Grupo Ambipar. Bancos como a Caixa Econômica Federal, Deutsche Bank e BTG entraram com pedidos para não permitir que a RJ corresse no Rio. No final, o tribunal de justiça do Rio manteve a sede da empresa na cidade.
Assim como o Rio é considerado mais aberto a demandas corporativas, os relatos de advogados são de que o Texas, onde a Ambipar procurou a proteção contra os credores, também é tido como mais “pró-devedor”. Nos últimos dias, a Ambipar pediu a suspensão do processo de Chapter 11 no Texas e entrou com o pedido de Chapter 15, um mecanismo que garante a extensão dos efeitos nos EUA da recuperação judicial da empresa no Brasil. Em uma audiência prevista para o dia 7 de agosto, o juiz norte-americano deverá analisar a questão.
Procurada, a Ambipar não comentou.
Retomada de uma unidade e redução de outra
Em seu processo de reestruturação, a Ambipar centra expectativas de sustentabilidade do grupo nas operações da Response, unidade de serviços de emergência ambiental e industrial, com representatividade importante nos EUA, além do Brasil e Europa, e com grandes clientes em sua carteira. Segundo documento divulgado pela empresa na semana passada, a Ambipar Response foi menos afetada com a recuperação judicial do que as operações da Environment, que transforma resíduos industriais e urbanos em novos produtos.
No entanto, as premissas operacionais e financeiras apresentadas mostram os números do conglomerado ainda impactados em 2026, especialmente pelas operações da Environment, que foram mais afetadas pela recuperação judicial e sofreram perda de confiança de clientes. Segundo a Ambipar, a Environment deve encolher 12% em seu tamanho no Brasil este ano.
A unidade teve R$ 320 milhões em contratos cancelados e outros R$ 222 milhões em contratos que foram executados e não renovados. Na Response, não houve cancelamentos, segundo a Ambipar, mas R$ 236 milhões em contratos executados e não renovados. No somatório, em virtude da crise, a Ambipar registrou uma redução de R$ 778 milhões em seu backlog, ou seja, nos contratos de serviços a serem prestados.
Empresa espera resultados melhores em 2027
De acordo com o documento, a Ambipar pretende entregar receita líquida consolidada de R$ 6,3 bilhões em 2027, acima dos R$ 5,9 bilhões em 2026. Em 2030, essa receita estaria em R$ 7,3 bilhões, conforme as premissas da companhia. O acionista fundador, Tércio Borlenghi, seguirá na empresa como diretor-executivo.
A Ambipar ajuizou uma medida cautelar, no Brasil, em 24 de setembro de 2025 e ingressou com um pedido de recuperação judicial em 20 de outubro de 2025, abrangendo as entidades brasileiras dos segmentos de Environment e Response. Na mesma data, a Ambipar Emergency Response iniciou voluntariamente um processo de Chapter 11 nos EUA. As demais operações internacionais permaneceram fora do perímetro da reestruturação brasileira.



