A retração mais forte da atividade industrial em junho, divulgada nesta terça-feira (4), pode contribuir para calibrar a trajetória de juros no Brasil. O dado, que veio abaixo das expectativas do mercado, reforça a tese de que a economia perde fôlego e abre espaço para o Comitê de Política Monetária (Copom) ajustar a taxa Selic na próxima reunião. Analistas, no entanto, alertam que o cenário fiscal ainda impõe cautela.
O que dizem os números
A produção industrial brasileira caiu 0,2% em junho na comparação com maio, interrompendo dois meses de alta. No acumulado do segundo trimestre, o setor registrou avanço de apenas 0,6%, bem abaixo do ritmo observado no início do ano. O resultado surpreendeu negativamente o mercado, que esperava estabilidade.
Os dados foram divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo o instituto, a queda foi puxada principalmente pelo setor de bens de capital, que recuou 3,1% no mês, e pela indústria de transformação, que caiu 0,4%. Esses segmentos são sensíveis às condições de crédito e investimento, o que sinaliza que a política monetária restritiva começa a fazer efeito.
Impacto na política de juros
Para economistas, a fraqueza da indústria reforça o argumento de que o ciclo de aperto monetário já atingiu seu pico. “A atividade industrial está claramente desacelerando, e isso deve ser levado em conta pelo Copom na próxima decisão”, afirma Carlos Lopes, economista-chefe de uma gestora paulista. Ele projeta um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, atualmente em 13,75% ao ano, já na reunião de agosto.
No entanto, há quem defenda cautela. O Boletim Focus, que reúne as projeções de mais de 100 instituições financeiras, mostra que a mediana das expectativas para a Selic no fim de 2023 permanece em 12,25%, indicando que o mercado ainda espera cortes graduais. A pressão fiscal, com o governo discutindo mudanças na meta de inflação e a possibilidade de novos gastos, é o principal fator de incerteza.
Repercussão no mercado
O dado fraco da indústria também influenciou o mercado de juros futuros. As taxas dos contratos de curto prazo caíram, refletindo a maior probabilidade de um corte na Selic. Já o Ibovespa operava em alta, impulsionado pelo alívio nas expectativas de juros, embora a queda do minério de ferro e a volatilidade no cenário externo limitassem os ganhos.
Na avaliação de analistas da XP Investimentos, a indústria deve continuar pressionada nos próximos meses, devido ao alto custo do crédito e à demanda externa enfraquecida. “O cenário é desafiador, mas a desaceleração pode ser o que falta para o Copom iniciar o ciclo de afrouxamento”, comentam em relatório.
O que esperar daqui para frente
Os próximos indicadores de atividade, como as vendas no varejo e o mercado de trabalho, serão fundamentais para confirmar a tendência de desaceleração. Se a fraqueza se espalhar para outros setores, o Copom pode ter mais espaço para cortar juros de forma mais agressiva. Por outro lado, uma recuperação da inflação de serviços ou um choque externo podem adiar o alívio monetário.
Por enquanto, a indústria brasileira segue em ritmo lento, com a utilização da capacidade instalada em 79,6% em junho, abaixo da média histórica. O cenário é de cautela para o segundo semestre, mas a possibilidade de juros mais baixos traz esperança de reaquecimento do setor produtivo.



