KOSPI despenca após boom de IA e vira 'cassino' na Coreia do Sul
KOSPI despenca após boom de IA e vira 'cassino'

A Coreia do Sul nunca havia presenciado uma euforia financeira tão intensa quanto a que tomou conta do país neste semestre. O índice KOSPI, principal referência da bolsa sul-coreana, dobrou de valor na primeira metade do ano, impulsionado pelo frenesi global em torno da inteligência artificial (IA), acumulando trilhões de dólares em capitalização e superando todos os grandes índices internacionais. O cenário, porém, virou de cabeça para baixo nas últimas semanas.

O colapso do KOSPI e o peso dos gigantes de chips

O avanço inicial foi puxado por duas empresas que se tornaram o centro das atenções no mercado: Samsung Electronics e SK Hynix, principais fornecedoras de semicondutores usados em data centers de IA. Juntas, elas respondem por mais da metade do valor do KOSPI. A Samsung viu suas ações avançarem 26,8% no período de alta, enquanto a SK Hynix saltou 30%. Mas o entusiasmo rapidamente se transformou em pânico.

As oscilações ficaram tão severas que os reguladores sul-coreanos ordenaram, em repetidas ocasiões, a suspensão obrigatória das negociações — quase todos os dias neste mês. No fechamento de quarta-feira, o KOSPI havia despencado aproximadamente dois quintos de seu recorde, apagando mais de US$ 2 trilhões em apenas dois dias consecutivos. A virada no humor ocorreu depois que Microsoft e Amazon fizeram declarações otimistas sobre seus gastos com data centers, alimentando expectativas de que o investimento em IA continua forte.

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O "Kospi Cassino" e a aposta política de Lee Jae Myung

Nesta sexta-feira (31), porém, o índice registrou um salto recorde de 18%, fechando aos 6.595 pontos. Essa montanha-russa transformou o mercado local no que muitos sul-coreanos frustrados passaram a chamar de "Kospi Cassino". A expressão reflete o esvaziamento da euforia que havia sido cultivada sob a liderança do presidente Lee Jae Myung, que se apresentou como o principal entusiasta da alta, vinculando sua marca política aos ganhos econômicos da IA.

Com o KOSPI oscilando de forma selvagem e a aprovação doméstica em queda, os cidadãos passaram a questionar publicamente se o governo de Lee superestimou um mercado frágil. Em junho, quando o índice girava em torno de 8.000 pontos, Lee declarou que o mercado estava "subvalorizado". Ainda neste mês, ele afirmou: "Acredito que a IA é análoga à humanidade descobrindo o fogo novamente". Suas declarações ajudaram a impulsionar milhões de sul-coreanos a abrirem contas de negociação e a apostar em Samsung e SK Hynix.

Chips em alta, papéis em queda

Os chips de memória produzidos por essas empresas são essenciais para armazenar e transportar os enormes volumes de dados usados no treinamento e na execução de modelos de IA. Apesar disso, os preços das ações despencaram no último mês, mesmo quando as companhias reportaram aumentos expressivos de receita e lucro e afirmaram não conseguir acompanhar a demanda. Na sexta-feira, no entanto, as ações da Samsung dispararam 27%, enquanto as da SK Hynix subiram 30%.

O movimento de alta se espalhou pela Ásia, embora em menor escala. O Nikkei 225, do Japão, avançou 4%. Em Taiwan, a bolsa saltou 8%, puxada pela Taiwan Semiconductor Manufacturing Co. (TSMC), a empresa mais valiosa do país e fabricante dos chips avançados de IA da Nvidia, que viu suas ações subirem 10%.

Números expressivos e o passivo político

O KOSPI já havia entregado um ganho extraordinário de 76% no ano passado, tornando-se o principal índice de melhor desempenho global. A capitalização total do mercado disparou para US$ 5 trilhões no início de junho, chegando a superar brevemente Índia, Canadá e as principais nações europeias para se tornar o sexto maior do mundo. Hoje, porém, o mercado é visto como um passivo político crescente para o governo.

O drama dos investidores de varejo

"O mercado se tornou um verdadeiro site de apostas", disse Lee Jong-soo, um trabalhador de escritório em Seul, à reportagem. "Perdi tanto em ações de semicondutores e IA nas últimas semanas que estou apavorado até mesmo de olhar para a tela. Na verdade, desativei as notificações do mercado de ações no meu celular."

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O drama é visível nos metrôs de Seul, onde muitos passageiros abandonaram os K-dramas para ficar olhando fixamente para as telas dos smartphones, vendo suas economias se desfazerem em ritmo alarmante. Fóruns de negociação online estão repletos de relatos de pessoas que dizem que sua "vida foi totalmente arruinada".

Próximo ao ponto de ônibus onde Lee Jong-soo esperava sob um sol escaldante, traders furiosos depositaram fileiras de coroas de flores funerárias no portão da Assembleia Nacional. As faixas pretas sobre branco traziam um aviso contundente: "Não ignore as lágrimas das formigas!" A expressão faz referência aos day traders de varejo da Coreia do Sul, para quem o crash não é uma questão de estatísticas abstratas, mas uma tragédia existencial.

Cidadãos comuns foram ativamente incentivados a investir por um governo que promovia as ações de maneira agressiva para desviar a riqueza das famílias de um setor imobiliário superaquecido. Jovens profissionais, estudantes e até soldados conscritos contraíram empréstimos com juros altos, na esperança de que os ganhos no mercado superassem os juros bancários e os protegessem de um mercado de trabalho sombrio.

ETFs alavancados: o "acelerador" da queda

Um dos principais motores desse movimento foram os fundos negociados em bolsa (ETFs) alavancados de ação única, que rastreavam Samsung e Hynix. Esses produtos prometiam ganhos dobrados quando as ações subiam, mas também dobravam as perdas nas quedas. Depois que os reguladores autorizaram o lançamento desses ETFs no final de maio, eles ajudaram a impulsionar o mercado antes das eleições locais, mas acabaram "pisando no acelerador" durante a subsequente queda, afirmou Shin Dong-uk, legislador da oposição.

Na quarta-feira, o ministro das Finanças, Koo Yun-cheol, e os principais formuladores de políticas foram forçados a se desculpar por terem autorizado os ETFs de alto risco sem avaliar adequadamente os perigos. Assessores do presidente Lee e reguladores financeiros, por outro lado, pediram que o público não culpasse os ETFs inteiramente. Eles apontaram para as preocupações globais sobre gastos com IA, que derrubaram mercados no mundo todo, e lembraram que o KOSPI ainda acumula alta superior a 50% neste ano.

Embora o governo tenha corrido para impor limites de volatilidade de emergência nos ETFs alavancados na sexta-feira, para milhões de investidores de varejo a medida chegou tarde demais. "Os ETFs de alto risco ajudaram a transformar o mercado de ações sul-coreano em uma versão real de Round 6", disse Jeong Eui-jeong, chefe do grupo cívico Associação de Acionistas da Coreia, em referência ao K-drama distópico. "Eles nunca deveriam ter nascido."