O JPMorgan manteve recomendação cautelosa sobre o setor de atacarejo no Brasil, projetando desempenho abaixo da média nos próximos trimestres. Em relatório divulgado nesta sexta-feira (17), os analistas apontam que a aceleração esperada na inflação de alimentos não deve gerar crescimento real de receita, devido ao forte endividamento das famílias e à migração para produtos mais baratos.
Mudanças no orçamento familiar impactam vendas
Os hábitos de consumo das famílias de média e baixa renda estão se alterando profundamente, afetando diretamente o atacarejo, cujo público-alvo tradicional é composto por essas famílias. Dados da ABAD (Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores) indicam que o orçamento doméstico está sendo desviado para plataformas de apostas digitais e medicamentos de perda de peso da classe GLP-1.
Segundo dados da NielsenIQ citados pelo JPMorgan, aproximadamente 5% dos lares brasileiros já possuem algum integrante fazendo uso de medicamentos GLP-1. Paralelamente, cerca de 26% do total de famílias registraram envolvimento regular com apostas ao longo de 2025, um avanço de quase duas vezes na comparação anual.
O impacto financeiro é expressivo. De acordo com o relatório, dados de março de 2026 apontam para entradas da ordem de cerca de R$ 30 bilhões por mês em plataformas de apostas, enquanto o GGR total (Receitas Brutas de Jogos) cruzou R$ 37 bilhões no ano fiscal de 2025, equivalente a cerca de 5% das vendas totais da ABRAS (Associação Brasileira de Supermercados).
Conforme dados da ABAD, os consumidores trocam partes do orçamento para alimentar as apostas, com cortes de 47% na categoria alimentícia e 45% nas despesas residenciais.
Inflação não beneficia produtividade
Além do desvio para apostas e medicamentos, a inflação prevista para os próximos meses não deve ajudar o setor como antes esperado. O otimismo de que o avanço nos preços poderia inflar o SSS (Vendas nas Mesmas Lojas) esbarra em uma incapacidade histórica de execução operacional das companhias.
O JPMorgan realizou um estudo com dados da ABRAS cobrindo os anos de 2019 a 2025, incluindo picos inflacionários da pandemia. A conclusão foi que nenhum dos operadores avaliados conseguiu expandir a produtividade de sua área de vendas acima da inflação do período. Mesmo grandes players como Sendas Distribuidora (Assaí) e Atacadão (Carrefour Brasil) mostraram dificuldades crônicas nessa frente. A análise trimestral de 2017 ao primeiro trimestre de 2025 aponta que ambas só superaram a inflação de alimentos na produtividade de lojas maduras em 30% dos trimestres avaliados.
“Os varejistas normalmente não conseguem vencer a inflação de alimentos, particularmente quando ela oscila rapidamente, ficando aquém em várias janelas e com as empresas listadas tendendo abaixo da média”, diz o documento do JPMorgan.
Teses de investimento: Assaí e Grupo Mateus
A preferência setorial do JPMorgan recai sobre o Assaí em detrimento do Grupo Mateus, devido a tendências operacionais ligeiramente superiores. No entanto, o banco manteve postura neutra para as ações do Assaí, cortando o preço-alvo para R$ 9,50 ao fim de 2026. Os analistas projetam SSS negativo de 0,4% para o segundo trimestre de 2026 e expansão tímida de 3% no faturamento bruto no ano, com margem Ebitda ajustada estável em 5,8%. A grande barreira é o cenário macroeconômico de juros mais altos. Eles esperam que a empresa negocie a 10 vezes o P/E ajustado para 2027 e apontam múltiplos esticados e prêmio injustificado.
Para o Grupo Mateus, o JPMorgan é mais pessimista, com recomendação de venda. O banco projeta SSS negativo na casa de um dígito médio para o segundo trimestre e avanço de 8% no faturamento em 2026, mas com contração de 80 pontos-base na margem Ebitda ajustada, que deve recuar para 6,5%.



