Desemprego recua a 5,4% e atinge menor nível da série histórica em 2026
Desemprego recua a 5,4% em junho de 2026, menor nível

Taxa de desemprego atinge mínima histórica com 103,1 milhões ocupados

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, referente ao trimestre encerrado em junho de 2026, revelou que a taxa de desocupação recuou para 5,4%, o menor nível para esse período desde o início da série histórica em 2012. O número recorde de pessoas ocupadas, de 103,1 milhões, tem funcionado como uma forte barreira contra os efeitos restritivos da política monetária, que mantém os juros em 14,25%.

De acordo com economistas, esse resultado reflete um mercado de trabalho aquecido, com a taxa de desemprego bem abaixo de seu nível neutro e a massa de rendimentos em alta. A XP destaca que os dados de junho reforçam esse cenário, com a população ocupada sustentando a atividade econômica.

Mercado de trabalho sustenta PIB, mas desafios persistem

O alto número de contratações explica por que o Produto Interno Bruto (PIB) continua crescendo, mesmo com o crédito mais caro. Gustavo Assis, CEO da Asset, afirma que o desemprego em patamares tão baixos “mostra que o mercado de trabalho se tornou o principal amortecedor da desaceleração provocada pelos juros elevados”. A massa de rendimentos atingiu R$ 380,3 bilhões, alta de 3,6% em doze meses, sustentando o consumo das famílias.

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No entanto, Valdir Piran Jr., CEO da Intra Asset, alerta que o mercado de trabalho não conseguirá sustentar o PIB sozinho por muito tempo. “Se não houver uma redução estrutural do custo de capital, o crescimento deverá perder força de forma gradual”, afirma. A taxa de participação da força de trabalho (62,1%) segue abaixo dos níveis pré-pandêmicos, e o envelhecimento populacional tende a aprofundar essa redução, segundo levantamento da 4intelligence.

Contratações continuam apesar dos juros altos: o papel da produtividade

Daniel Duque, pesquisador associado da FGV/Ibre, explica que, com o crédito caro, os empresários não tomam empréstimos para modernizar máquinas ou ampliar instalações, o que trava a produtividade. Contudo, a forte demanda força a contratação contínua apenas para suportar a operação básica. A longo prazo, a limitação da produtividade choca-se com gargalos demográficos, tornando a produtividade uma das principais teses de crescimento, conforme avalia Antônio Patrus, diretor da Bossa Invest.

O descompasso entre as queixas do setor corporativo sobre a Selic e a manutenção das contratações é explicado por necessidades operacionais imediatas. A contratação ocorre para atender a demanda presente, mas sem investimentos em capacidade futura, a economia pode enfrentar restrições de oferta.

Mercado aquecido trava cortes na Selic e mantém inflação de serviços sob pressão

A manutenção de um mercado “apertado”, onde a procura por trabalhadores supera a oferta em diversos setores, pressiona a inflação de serviços, dificultando o trabalho do Banco Central. Segundo Claudia Moreno, economista do C6 Bank, este cenário “deve manter a inflação de serviços pressionada”, uma vez que o desemprego segue em patamares historicamente baixos.

Peterson Rizzo, Head de RI da Multiplike, destaca que a resiliência da atividade e do emprego é o que impede a queda da taxa Selic. O Comitê de Política Monetária (Copom) se reúne na semana que vem para decidir os rumos da política de juros, e as expectativas indicam manutenção ou ajustes pontuais.

Sinais de desaceleração: estabilização na taxa e criação de vagas próxima a zero

Apesar da robustez geral, métricas ajustadas revelam que o fôlego do emprego começou a ceder. Com ajuste sazonal, a taxa de desemprego apresentou estabilidade em 5,4% ou leve alta para 5,5%. Daniel Duque avalia que o cenário de desaceleração se consolidou, com estagnação na taxa de desemprego e na criação de novas empresas, e números de geração de vagas próximos de zero.

Duque explica que a economia reage em “três tempos” aos juros altos: primeiro, a atividade impacta o número de vagas; depois, o desemprego baixo afeta os salários; e, por último, a renda para de aumentar. É por isso que os rendimentos continuam avançando, mesmo com a estagnação na criação de empregos formais.

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Renda estagnada e alta informalidade: a qualidade do emprego em xeque

A taxa de subutilização caiu de 14,3% para 12,9% no trimestre, e o número de desalentados recuou 14,7%, atingindo 2,3 milhões. No entanto, a desaceleração já é palpável em cinco dos dez setores analisados por Antonio Ricciardi, economista do Daycoval: construção, comércio, alojamento e alimentação, tecnologia e finanças, e administração pública.

A leitura de salários mostra divergências setoriais. Os rendimentos reais registraram a terceira queda consecutiva na margem, indicando esfriamento em áreas como construção, comércio e tecnologia. A alta rotatividade geral mantém os salários aquecidos em outras frentes, pois empresas buscam atrair funcionários já empregados com habilidades específicas.

Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, assinala que o impulso na ocupação não partiu do setor privado com carteira assinada, mas sim dos postos informais e da administração pública. Segundo ela, “o resultado é compatível com um ciclo de emprego ainda forte, mas mais maduro”, onde a abrangência setorial mostra acomodação.

Impacto misto na inflação e expectativas para o Copom

Para Benedito, a leitura dos dados é mista. A taxa de desemprego historicamente baixa e a queda ampla da subutilização confirmam um mercado de trabalho apertado, impondo riscos à inflação de serviços. Por outro lado, a ausência de aceleração dos salários e a concentração da expansão em empregos públicos e sem carteira reduzem o risco de uma nova pressão salarial generalizada. “O dado, portanto, não representa uma reaceleração homogênea do mercado de trabalho, mas também não entrega enfraquecimento suficiente para produzir conforto adicional ao Banco Central”, avalia.

Leonardo Costa, do ASA, reforça que os indicadores de atividade e emprego apontam para “desaceleração gradual da economia na segunda metade do ano, sem sinais de deterioração mais abrupta do mercado de trabalho”. Para o Copom, os dados da PNAD indicam que a política monetária continua funcionando, embora de modo mais lento. A expectativa do C6 Bank é que a Selic encerre 2026 em 14% ao ano. A XP projeta taxa de desemprego de 5,6% no fim de 2026 e 6,2% em 2027, com PIB de 2% e 1%, respectivamente.