O Corinthians desembolsou quase R$ 7 milhões em um programa de sorteios que ficou mais de dois anos sem qualquer divulgação ou atividade aparente. O Fiel da Sorte, lançado com entusiasmo em junho de 2023, prometia prêmios semanais e raspadinhas digitais para os associados do Fiel Torcedor. No entanto, desde abril de 2024, o programa simplesmente desapareceu dos canais oficiais do clube, mas os pagamentos à empresa responsável, a Incentiva Serviços Combinados, Tecnologia e Marketing Para Empresas LTDA, continuaram sendo feitos regularmente.
Pagamentos crescentes e contrato milionário
De acordo com planilhas e notas fiscais obtidas pelo ge, o Corinthians pagou 34 prestações mensais à Incentiva, totalizando R$ 6,9 milhões. A primeira parcela, em agosto de 2023, foi de R$ 124.488,75; a última, em abril de 2026, chegou a R$ 343.522,50 — quase o triplo. O contrato, firmado em abril de 2023, previa que a empresa recebesse R$ 3,75 por mês por cada novo sócio do Fiel Torcedor, valor fixo independentemente do plano. Com o aumento no número de associados, as parcelas cresceram progressivamente.
Três presidentes e rescisão unilateral
Durante a vigência do contrato, o Corinthians teve três presidentes: Duilio Monteiro Alves (2023), Augusto Melo (2024 a maio de 2025) e Osmar Stabile (atual). Em maio de 2026, o clube notificou extrajudicialmente a Incentiva e, em junho, rescindiu o contrato unilateralmente, alegando descumprimento de obrigações. A diretoria alvinegra busca uma indenização de R$ 3 milhões pelo término antecipado do vínculo, que tinha duração até 2028. O clube também investiga quais serviços deixaram de ser entregues e desde quando.
Por sua vez, a Incentiva afirma que não foi informada oficialmente da rescisão e que “a campanha se manteve operacional com entregas até o final de maio deste ano” (2026). O advogado da empresa, João Otávio Vanderley, declarou: “Recebemos com surpresa, pois a campanha se manteve operacional com entregas até o final de maio deste ano.”
Prêmios de baixo valor e autorização vencida
Entre junho e setembro de 2024, a última campanha autorizada pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Governo Federal previa o sorteio de 65 itens e experiências no valor total de R$ 7.051,30 — uma quantia irrisória diante dos R$ 6,9 milhões recebidos pela empresa. A autorização venceu em setembro de 2024 e, desde então, a Incentiva não obteve novas licenças para realizar sorteios com o Corinthians. O advogado da empresa afirmou que tentou contato com o clube para assinar os documentos necessários, mas “foi procrastinado por pessoas que tinham que resolver”.
Mudanças societárias e empresa sem expertise
A Incentiva foi fundada em agosto de 2021 por Rodrigo Gilotti. Em 2023, lançou o programa “Coringão da Sorte”, depois rebatizado como “Fiel da Sorte”. Em dezembro de 2023, a JK Comercio Internacional LTDA tornou-se sócia com 70% de participação. Em maio de 2024, Rodrigo Gilotti deixou a empresa para Anderson Gilotti e Claudio Caviola Foiani. Em setembro de 2024, a Incentiva foi vendida a João Augusto de Queiroga Vanderley, um pernambucano de 64 anos sem experiência no ramo de sorteios. Seu irmão e advogado, João Otávio Vanderley, justificou: “Você não precisa ser médico para ter hospital, não precisa ser engenheiro para ter construtora. Oportunidade de negócio, pronto.”
Atualmente, a empresa tem sede em Santana de Parnaíba (SP), capital social de R$ 50 mil e o Corinthians como único cliente. O atual dono reside em Alagoas.
Reações das gestões anteriores
O ex-presidente Duilio Monteiro Alves defendeu o contrato em nota: “O contrato com a empresa Incentiva tinha como objetivo o incremento de novas receitas através da venda de novos planos do Fiel Torcedor, contemplando também o torcedor que não pode ir ao estádio.” Já Augusto Melo, seu sucessor, afirmou em áudio que nem sabia do contrato e nunca tratou sobre o Fiel da Sorte. A atual diretoria, presidida por Osmar Stabile, informou em nota que “a rescisão ocorreu este ano após o descumprimento de contrato por parte da empresa parceira” e que “os pagamentos cumpridos desde junho de 2025 foram realizados respeitando os trâmites legais e contábeis do Clube”.
Investigação interna e medidas judiciais
O Corinthians cogita solicitar uma perícia à Justiça para avaliar o ressarcimento. O clube pediu ajuda à OneFan, responsável pelo sistema do Fiel Torcedor, para verificar se os prêmios foram entregues, mas a empresa não tem esse controle — ele ficava com a Incentiva. Após a rescisão, o Corinthians removeu todas as referências ao Fiel da Sorte de seus materiais e do aplicativo Universo SCCP. As duas últimas notas fiscais emitidas pela Incentiva não foram pagas.



