Tesouro IPCA+ vs. crédito privado: como comparar e investir
Tesouro IPCA+ vs. crédito privado: guia de investimento

O Tesouro IPCA+ com vencimento em 2032, que oferece ganho real de 8,2% ao ano, tornou-se o centro das atenções dos investidores em busca de proteção contra a inflação e rentabilidade historicamente elevada. No entanto, os títulos públicos não são as únicas alternativas atreladas ao IPCA: o mercado financeiro oferece outras aplicações com diferentes níveis de risco e retorno, como CDBs, LCIs, LCAs, debêntures, CRIs e CRAs.

Alternativas ao Tesouro: títulos bancários e a proteção do FGC

Entre as opções, destacam-se os títulos emitidos por bancos, como Certificados de Depósito Bancário (CDBs), Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs). Esses investimentos contam com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de até R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira, dentro do limite de R$ 1 milhão a cada quatro anos. Diferentemente, os títulos públicos são garantidos pelo governo federal, sendo chamados de títulos soberanos.

Os papéis bancários, entretanto, apresentam riscos que precisam ser avaliados. A qualidade de crédito varia conforme o banco emissor, e, segundo Guilherme Almeida, head de Renda Fixa da Suno Research, "a tendência é que, quanto menor a instituição ou mais arriscada a sua estrutura de operações, maior a remuneração ofertada ao investidor". Por isso, é essencial analisar a classificação de risco das agências, a carteira de crédito, o histórico de resultados e o Índice de Basileia, que mede a capacidade da instituição de absorver perdas.

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Além do risco de crédito, há o risco de liquidez, mais evidente em LCIs e LCAs, que possuem carência para resgate. Em CDBs, o investidor pode enfrentar risco de mercado se precisar vender antes do vencimento, especialmente se as taxas de juros subirem, o que pode reduzir o valor do título.

Rentabilidade dos títulos bancários: números de junho

Um estudo da Quantum Finance mostrou que, em junho, os CDBs indexados à inflação apresentaram taxa média de IPCA + 7,94% ao ano e máxima de IPCA + 8,37% para o prazo de 12 meses. Para 24 meses, a taxa máxima chegou a IPCA + 8,97%. Já as LCAs, isentas de Imposto de Renda, tiveram taxa média de IPCA + 5,87% e máxima de IPCA + 6,29% para 12 meses, e máxima de IPCA + 6,58% para 24 meses.

Esses números mostram que, apesar da proteção do FGC, a rentabilidade pode ser inferior à do Tesouro IPCA+ em alguns casos, mas a isenção de IR em LCIs e LCAs pode melhorar o retorno líquido.

Crédito privado: retorno elevado com riscos concentrados

No segmento de crédito privado, debêntures, Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs) e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) também oferecem rentabilidade indexada à inflação. As carteiras recomendadas de BB Investimentos, XP Investimentos e BTG Pactual incluem títulos de empresas de energia elétrica e saneamento, como Equatorial, Neoenergia, Energisa, Cemig, Sabesp e Isa Energia.

A debênture RALM11, indicada pelo BTG, apresenta a maior taxa indicativa entre as opções recomendadas, de IPCA + 9,1054%, conforme dados da Anbima. O emissor é a Rialma.

Marcos Bassani, professor e sócio-fundador da Boa Brasil Capital, alerta: "Aqui o jogo muda, porque não há FGC. O risco de crédito é real e recai sobre o investidor." Ele ressalta a importância de analisar a empresa emissora, suas demonstrações financeiras e fatos relevantes. No caso das debêntures incentivadas, isentas de IR, muitas financiam projetos de infraestrutura de longo prazo, o que explica a indexação à inflação.

Rafael Ohmachi, da RB Asset, destaca que "papéis atrelados à inflação tendem a ter durations mais longas que os papéis 'CDIzados', o que acentua a volatilidade". A duration é o prazo médio para o investidor recuperar o valor investido.

Análise além da nota de crédito

Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, recomenda não considerar apenas a nota de crédito do emissor. "Ela representa uma opinião sobre a qualidade de crédito em determinado momento e pode ser revisada depois que a deterioração financeira já começou. Também não mede adequadamente a liquidez. Um título pode ter nota boa e, ainda assim, ser muito difícil de vender antes do vencimento", alerta.

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Ela também desaconselha a ideia de que qualquer CRI, CRA ou debênture incentivada é adequada por ter isenção de IR. "A isenção melhora o retorno líquido, mas não corrige uma estrutura ruim." Em CRIs e CRAs, é preciso analisar o devedor do lastro, a qualidade dos recebíveis e a existência de garantias reais.

Bassani observa que há CRIs e CRAs pulverizados, com múltiplos devedores, o que melhora a diversificação, mas pode aumentar a opacidade. Ele também aponta o risco de liquidez: "Geralmente, a liquidez dos títulos de crédito privado é pior que a dos papéis bancários. O mercado secundário para CRIs e CRAs costuma ser raso."

Como comparar o Tesouro IPCA+ com outras opções

Especialistas afirmam que não existe um título universalmente melhor: cada um tem um propósito no planejamento financeiro. O Tesouro IPCA+ oferece segurança do Tesouro Direto e liquidez diária, mas a marcação a mercado pode gerar perdas se o investidor vender antes do vencimento. Os títulos bancários são um meio-termo, com proteção do FGC e rentabilidade um pouco maior. Já o crédito privado pode turbinar o retorno, mas com maior risco e prazos mais longos.

Jeff Patzlaff, planejador financeiro CFP, orienta comparar papéis de mesmo prazo e considerar o Imposto de Renda, que varia de 22,5% a 15% conforme o tempo de investimento. "Se uma empresa com nota de crédito duvidosa oferece apenas 0,5% a mais ao ano do que o Tesouro IPCA+, o risco não compensa. Se uma empresa sólida e líder de mercado oferece 1,5% a 2,5% a mais ao ano líquido acima do Tesouro para o mesmo prazo, o prêmio pelo risco começa a se tornar interessante para uma carteira diversificada", diz Patzlaff.

Em resumo, o investidor deve avaliar seu perfil de risco, horizonte de tempo e necessidades de liquidez antes de escolher entre Tesouro IPCA+, títulos bancários ou crédito privado. A análise criteriosa do emissor e das condições de mercado é fundamental para tomar decisões informadas.