Apenas dois investimentos de renda fixa superaram o CDI no primeiro semestre de 2026, segundo os índices de mercado da Anbima. No outro extremo, o pior desempenho do período veio das debêntures incentivadas atreladas à inflação, que renderam o equivalente a apenas 20,7% do CDI entre janeiro e junho.
Debêntures CDI lideram ranking
As debêntures atreladas ao CDI, medidas pelo índice IDA-DI, avançam 7,09% no semestre e lideram o ranking. Os títulos públicos pós-fixados, como o Tesouro Selic, medidos pelo IMA-S, sobem 6,95% e completam a dupla que superou a taxa de referência, que acumula 6,90% no período. Já o IDA-IPCA Infraestrutura, índice que mede o desempenho das debêntures isentas de Imposto de Renda atreladas ao IPCA, rendeu apenas 1,43% no semestre.
Impacto do cenário macroeconômico
A reta final de junho ajudou a moldar esse resultado. Os últimos dias de junho foram marcados pela queda de cerca de 12% no preço do petróleo, com o Brent recuando de US$ 82 para próximo de US$ 73 por barril, depois da assinatura de um memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã sobre o conflito no Oriente Médio, incluindo a região do Estreito de Ormuz. O movimento, somado a um IPCA-15 de junho que subiu 0,41%, abaixo do esperado pelo mercado, contribuiu para o recuo dos juros futuros no Brasil.
O Tesouro Nacional chegou a cancelar um leilão de NTN-B diante do nível elevado das taxas, o que também ajudou a conter a alta dos juros longos. Documentos recentes do Banco Central não trouxeram indicação clara sobre os próximos passos da Selic, mas reforçaram um balanço de riscos assimétrico para cima na inflação.
Desempenho dos índices de renda fixa da Anbima
Confira o desempenho dos principais índices no primeiro semestre de 2026:
- IDA-DI (Debêntures atreladas ao CDI): 7,09% (102,8% do CDI)
- IMA-S (Títulos públicos pós-fixados): 6,95% (100,7% do CDI)
- CDI (Taxa de referência): 6,90% (100%)
- IRF-M 1 (Prefixados curtos): 6,63% (96,1% do CDI)
- IMA-B 5 (IPCA até 5 anos): 6,48% (93,9% do CDI)
- IMA-Geral (Todos títulos públicos): 5,83% (84,5% do CDI)
- IDA-IPCA ex-Infraestrutura (Debêntures IPCA sem isenção): 5,45% (79,0% do CDI)
- IRF-M (Todos prefixados): 5,06% (73,3% do CDI)
- IDA-Geral (Todas debêntures): 4,40% (63,8% do CDI)
- IMA-B (Todos IPCA): 4,08% (59,1% do CDI)
- IMA-B 5+ (IPCA acima de 5 anos): 2,20% (31,9% do CDI)
- IDA-IPCA Infraestrutura (Debêntures incentivadas IPCA): 1,43% (20,7% do CDI)
Crédito privado IPCA+ sofre com estresse no mercado
O desempenho fraco desses papéis está ligado a um período de forte volatilidade no mercado de crédito privado. O ano começou com spreads de crédito bastante comprimidos, mas o quadro mudou entre março e abril, quando os processos de recuperação de Raízen e GPA elevaram a aversão a risco, sobretudo entre emissores mais alavancados. O movimento provocou resgates em fundos e pressionou os preços dos papéis marcados a mercado, com abertura significativa dos spreads justamente nos títulos atrelados ao IPCA.
Os primeiros sinais de estabilização só apareceram a partir de maio, ganhando força em junho. Segundo relatório do Bradesco BBI, os spreads das debêntures incentivadas com rating AAA, que representam o prêmio pago acima dos títulos públicos para compensar o risco do emissor, recuaram 23 pontos-base desde o pico observado em maio. Mesmo assim, o tempo de recuperação não foi suficiente para tirar o índice da última posição do semestre. Outro índice atrelado à inflação, o IDA-IPCA ex-Infraestrutura, que acompanha debêntures também corrigidas pelo IPCA mas sem o benefício fiscal, teve resultado melhor, de 5,45%, o equivalente a 79% do CDI.
Debêntures atreladas ao CDI lideram
O IDA-DI reúne debêntures corrigidas por uma taxa flutuante ligada ao CDI. O indicador sobe 7,09% no semestre, superando até a própria taxa de referência. O resultado reflete a normalização dos prêmios de risco nesses papéis ao longo do período, com spreads que seguiram estáveis e em patamares próximos à média histórica, segundo a XP Research.
O IDA-Geral, que combina debêntures de diferentes indexadores, soma 4,40% no semestre, o equivalente a 64% do CDI.
Prazo curto rende mais entre títulos públicos
Entre os títulos públicos federais, o padrão de melhor desempenho para papéis de vencimento mais curto se repete. O IRF-M 1, que reúne títulos prefixados com prazo de até um ano, sobe 6,63% no semestre, ou 96% do CDI. Já o IRF-M 1+, formado por papéis prefixados de prazos mais longos, avança apenas 4,47%, pouco mais de 64% do CDI. O IRF-M geral, que engloba toda a curva de vencimentos prefixados, fica em 5,06%.
Nos títulos indexados à inflação, a diferença segue o mesmo caminho. O IMA-B 5, que reúne papéis atrelados ao IPCA com vencimento de até cinco anos, sobe 6,48% no período. O IMA-B 5+, com prazos mais longos, avança só 2,20%, cerca de 32% do CDI. O IMA-B geral, que soma todos os vencimentos, fecha o semestre em 4,08%.
Os índices mais amplos, que somam títulos públicos de todos os indexadores e prazos, como o IMA-Geral e o IMA-Geral ex-C, fecham o semestre em 5,83% e 5,82%, respectivamente.
O que esperar para o segundo semestre
Olhando à frente, o BB Investimentos recomenda cautela na alocação em crédito privado, com preferência por emissores de maior qualidade e estruturas financeiras mais robustas, mesmo com a reprecificação dos papéis tornando a relação entre risco e retorno mais equilibrada depois do estresse do início do ano.
Para efeito de comparação, o IPCA, cujo dado mais recente disponível no momento do fechamento das contas era referente a maio, soma 2,60% até aquele mês. O IHFA, índice de fundos multimercados da Anbima, com dado até 26 de junho, avança 3,04% no período.



