Crédito privado brasileiro atrai investidores estrangeiros
Crédito privado brasileiro atrai investidores estrangeiros

O mercado brasileiro de crédito privado começa a despertar o interesse de investidores estrangeiros. Enquanto as bolsas americanas oferecem retornos cada vez mais comprimidos e o crédito privado nos Estados Unidos enfrenta falta de liquidez, gestores internacionais estão batendo à porta do Brasil em busca de alternativas. Quem acompanha de perto esse movimento é Eduardo Alhadeff, sócio e gestor da estratégia de crédito da Ibiuna Investimentos, que vê nessa entrada uma verdadeira mudança de jogo.

Episódios que ilustram o interesse crescente

Alhadeff compartilhou dois episódios recentes que demonstram esse aumento de interesse. No primeiro, um investidor americano especializado em crédito imobiliário estruturado, após percorrer os Estados Unidos e o México, pediu indicações para entrar no Brasil. No segundo, um grande fundo internacional com excesso de capital encontrou um impasse: a bolsa americana estava saturada demais para gerar retorno diferenciado, e o crédito privado lá fora era ilíquido em excesso.

A solução encontrada por esses gestores tem sido montar seguradoras em paraísos fiscais, geralmente em Bermuda, inspiradas no modelo que Warren Buffett construiu décadas atrás na Berkshire Hathaway. Eles usam o balanço da seguradora para assumir riscos de crédito de longo prazo sem as restrições de liquidez dos fundos tradicionais.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Estratégia da Ibiuna: paciência e compras oportunistas

O tema foi debatido no programa Stock Pickers, da InfoMoney, apresentado por Lucas Collazo. Na conversa, Alhadeff expôs a estratégia que tem guiado a gestão do fundo Ibiuna Credit nos últimos meses: paciência deliberada na alocação, seguida de compras oportunistas quando o mercado abre brechas.

Desde meados de 2024, a Ibiuna vinha encurtando os prazos e elevando a qualidade dos papéis em carteira. A avaliação da equipe era de que o mercado de crédito local não estava remunerando adequadamente nem o risco de prazo nem o de crédito. O resultado imediato foi um caixa elevado, em detrimento do retorno no curto prazo.

No começo de março deste ano, mais de 33% dos ativos do fundo estavam parados. Somando letras financeiras e debêntures curtas de empresas de infraestrutura, esse número chegava a quase 40%. “A gente tenta não pegar a faca caindo — esperar a faca cair no chão para começar a investir”, explicou o gestor.

Com a correção ao longo do primeiro trimestre, a equipe montou uma lista de compras e passou a realocar gradualmente. Hoje, o caixa está em torno de 20%.

Bonds latino-americanos como diferencial

Uma marca da gestão da Ibiuna Crédito é a alocação em títulos corporativos de empresas latino-americanas emitidos no exterior, os chamados bonds, sempre com proteção cambial. Na prática, isso significa que o risco da variação do dólar é travado por meio de derivativos, de forma que a oscilação do câmbio não afete o cotista brasileiro.

A estratégia se mostrou eficiente ao longo de quase seis anos. Com uma exposição média de apenas 12% a 13% do patrimônio, essa parcela da carteira respondeu por 25% de todo o excesso de retorno gerado pelo fundo no período. “Com um oitavo de exposição no fundo, gerei um quarto do alfa da carteira”, sintetizou Alhadeff.

Em 2024, posições em papéis de empresas argentinas como YPF e Pampa Energía — compradas quando pagavam mais de 10% ao ano em dólares, o equivalente a CDI mais quatro ou cinco pontos percentuais — surfaram a virada do cenário macroeconômico da Argentina após a eleição de Javier Milei. México, Peru e Colômbia também já geraram oportunidades ao longo dos anos.

Território ainda doméstico

Se o capital estrangeiro chegar ao Brasil em volume, a competição no mercado de crédito local ficará mais acirrada. Por ora, o espaço ainda é quase exclusivo dos gestores domésticos, e quem conhece as regras não escritas desse mercado ainda leva vantagem considerável.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar