Os brasileiros estão transformando a forma como planejam a troca do automóvel. Em vez de renovar a frota a cada três ou quatro anos, uma parcela crescente de motoristas opta por manter o mesmo veículo por períodos mais longos. O movimento é impulsionado pela combinação de juros elevados, aumento dos preços dos carros novos e maior consciência financeira.
Juros altos desestimulam financiamento
A taxa básica de juros, a Selic, permanece em patamares elevados, encarecendo o crédito para aquisição de veículos. Segundo dados do Banco Central, o custo médio do financiamento de automóveis subiu mais de cinco pontos percentuais nos últimos dois anos. Isso faz com que muitos consumidores adiem a compra de um carro novo e priorizem a manutenção do atual.
“O brasileiro está mais cauteloso. Com a inflação apertando o orçamento, financiar um carro zero ficou inviável para grande parte da classe média”, afirma Eduardo Soares, economista do Instituto de Pesquisa Automotiva. A pesquisa mais recente da entidade mostra que o tempo médio de posse de um carro no Brasil saltou de 3,8 anos em 2020 para 5,2 anos em 2025.
Preços dos carros novos sobem acima da inflação
Outro fator determinante é o preço dos veículos zero-quilômetro. Entre 2022 e 2025, o valor médio de um carro popular aumentou cerca de 40%, superando a inflação acumulada no período. Itens como aço, eletrônicos e semicondutores ficaram mais caros, e a alta do dólar impacta componentes importados.
Esse cenário estimula os motoristas a cuidar melhor do carro usado. Concessionárias relatam aumento na procura por revisões e serviços de conservação. O mercado de seminovos também se aquece, com preços mais competitivos em relação aos zero.
Mudança no perfil do consumidor
A pesquisa da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) indica que 62% dos entrevistados planejam trocar de carro apenas quando o atual apresentar problemas graves ou custos de manutenção excessivos. Apenas 28% ainda seguem o ciclo tradicional de substituição a cada quatro anos.
A tendência é mais forte entre motoristas com renda de até cinco salários mínimos, que representam a maioria dos compradores de carros populares. Na faixa de renda acima de dez salários mínimos, o prazo de troca também aumentou, mas em menor proporção.
Impacto no mercado automotivo
A redução na frequência de trocas pressiona as montadoras a repensar estratégias. Vendas de veículos novos caíram 12% no primeiro semestre de 2025 em relação ao mesmo período de 2024, segundo a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).
Por outro lado, as revisões e serviços ganham relevância. As redes autorizadas investem em pacotes de manutenção para fidelizar clientes que retêm o carro por mais tempo. O mercado de autopeças também cresce, com vendas estimadas em alta de 8% no ano.
Planejamento financeiro e sustentabilidade
Especialistas destacam que a mudança de comportamento tem lado positivo: estimula o planejamento financeiro e reduz o endividamento. “Trocar de carro com menos frequência libera recursos para outras prioridades, como educação e investimentos”, diz Carla Mendes, planejadora financeira do Instituto Brasileiro de Finanças.
Além disso, a maior longevidade dos veículos contribui para a sustentabilidade, ao diminuir a demanda por produção de novos automóveis e o descarte precoce. Entretanto, ressalta-se a necessidade de manutenção adequada para evitar maior emissão de poluentes em motores antigos.
Perspectivas para os próximos anos
Analistas acreditam que a tendência de prolongamento da posse deve se manter enquanto os juros estiverem altos e os preços dos carros novos não se acomodarem. A previsão é de que o tempo médio de posse atinja 6 anos até 2027, caso não haja mudanças significativas na política econômica.
Para o consumidor, a recomendação é pesquisar bem antes de decidir entre consertar ou trocar. “Vale a pena calcular o custo total de posse, incluindo depreciação, seguro, impostos e manutenção, para tomar a decisão mais acertada”, orienta Soares.



