Tarifa de Trump deve afetar exportações e empregos no Alto Tietê
Tarifa de Trump deve afetar exportações e empregos

A tarifa adicional de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre parte dos produtos brasileiros já está em vigor e deve afetar diretamente as exportações das fábricas do Alto Tietê, região que tem o mercado americano como principal destino de suas vendas ao exterior. No primeiro semestre de 2026, as empresas locais exportaram R$ 377 milhões para os EUA, o equivalente a 16,1% de tudo que a região vendeu para outros países, segundo o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp).

A medida foi confirmada pelo governo Trump no dia 15 de julho e entrou em vigor no dia 22 de junho, mas passou a ser aplicada oficialmente aos produtos que chegaram aos EUA nesta quarta-feira (29). Com isso, a expectativa é de mudanças no comportamento da indústria regional, que agora precisa se adaptar a um cenário de barreiras comerciais mais severas.

Impacto na competitividade

Para o presidente do Ciesp, Rafael Cervone, a sobretaxa coloca o Brasil entre os países com as barreiras comerciais mais duras nos Estados Unidos, o que reduz a competitividade das empresas brasileiras em um dos maiores mercados globais. "As novas tarifas, que posicionam o Brasil como um dos países com barreiras comerciais mais severas nos Estados Unidos, afetam muito nossa competitividade num dos maiores mercados globais", afirmou.

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Renato Rissoni, diretor do Ciesp no Alto Tietê, reforça que o momento exige cautela e análise técnica detalhada. "Ainda não temos o dimensionamento do impacto da medida sobre o volume de exportações da região, mas é certo que um aumento de tarifas naturalmente gere maior cautela por parte das empresas", alerta.

Principais produtos atingidos

Os principais itens exportados pelo Alto Tietê estão entre as categorias alcançadas pela nova tarifa. Papel e cartão representam 19,1% das exportações regionais, enquanto máquinas e aparelhos elétricos somam 10,9%. Esses setores, segundo o economista Diego Hernandez, têm pouca margem para absorver um aumento repentino de 25%.

  • Papel e cartão: 19,1% das exportações
  • Máquinas e aparelhos elétricos: 10,9%
  • Etanol
  • Máquinas agrícolas
  • Vestuário
  • Calçados
  • Ferramentas de jardinagem
  • Equipamentos de mineração
  • Açúcar orgânico
  • Bens de capital
  • Manufaturados em geral
  • Produtos químicos diversos
  • Itens industriais processados

"É algo impraticável da noite para o dia. O mercado local vai precisar de tempo para reabsorver esse excedente e buscar compradores em outros países. É preciso achar novas formas para reduzir essa dependência dos Estados Unidos", explicou Hernandez.

Risco de demissões e medidas de curto prazo

Além dos EUA, Argentina e Paraguai são outros destinos importantes das exportações do Alto Tietê. Juntos, os dois países responderam por pouco mais de 22% das vendas externas da região no primeiro semestre: a Argentina comprou R$ 354 milhões (15,1%) e o Paraguai, R$ 165 milhões (7,1%). A diversificação de mercados ganha ainda mais importância para reduzir os impactos da tarifa americana sobre a economia regional e preservar empregos.

Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que cerca de 29% dos trabalhadores com carteira assinada do Alto Tietê atuam na indústria. Ao todo, o setor emprega mais de 100 mil pessoas. Segundo Hernandez, o tempo necessário para encontrar novos compradores pode pressionar as empresas a adotar medidas de curto prazo.

"Se essa tarifa continuar por mais tempo, a indústria não vai conseguir absorver o prejuízo sozinha e isso atinge diretamente o trabalhador", alerta. Ele acrescenta que "em empresas com alta dependência do mercado americano, o impacto no nível de emprego é inevitável, forçando até esquemas de férias compulsórias para tentar segurar as contas ou, em casos mais graves, o fechamento de portas".

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Tarifa pode ser temporária

Apesar do cenário de incerteza, o economista avalia que a tarifa pode perder força nos próximos meses diante das pressões econômicas nos próprios Estados Unidos. "Por mais que seja um momento de susto para a nossa indústria, essa tarifa não deve se sustentar por muito tempo. A economia americana já sofre com a inflação alta e repassar um custo de 25% também prejudica o mercado consumidor deles. A tendência é que seja uma medida temporária e que a região passe por isso sem grandes danos estruturais", explica.

A sobretaxa alcança cerca de 3 mil itens e será cobrada dos importadores americanos no momento em que os produtos brasileiros entrarem nos EUA. Na prática, isso aumenta o custo de levar esses produtos ao país e pode desestimular as compras por empresas americanas. Outros mais de 2 mil produtos ficaram de fora da medida, muitos por serem considerados estratégicos para a economia americana.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, afirmou que o novo tarifaço atingirá 18% das exportações brasileiras para os EUA, com base nas exportações de 2024. O valor corresponde a R$ 37,6 bilhões.