A transição energética já deixou de ser um debate teórico para se tornar um dos principais vetores de transformação da economia global. Mas ainda está longe de seguir um caminho linear.
Transição gradual, não ruptura
Para Paula Kovarsky, sócia da Legend Capital, e Clarissa Lins, fundadora da Catavento Consultoria, o maior erro do mercado é tratar o tema como uma ruptura imediata, e não como um processo gradual e complexo. “Não tem varinha mágica, isso é uma transição por definição. A gente precisa entender o que está pronto hoje, o que vai ficar pronto em 5, 10 anos e o que é disruptivo para 20 ou 30 anos”, afirma Paula.
As declarações foram feitas no programa O Clima na Faria Lima, apresentado por Marina Cançado.
Mais opções, não substituição
Um dos consensos da conversa é que a transição energética não será baseada na substituição de uma fonte por outra, mas sim na ampliação do portfólio energético. Para Clarissa, essa mudança de mentalidade é central. “Ter uma matriz energética diversificada, com soluções diferentes e atributos distintos, é melhor do que ter menos opções”, diz.
Na prática, isso significa abandonar a lógica binária – fóssil versus renovável – e avançar para um modelo em que diferentes fontes convivem e se complementam. “A gente não está destruindo as antigas, está agregando novas possibilidades”, esclarece.
Clima como risco financeiro
A virada mais relevante dos últimos anos foi a migração do tema climático para o centro das decisões econômicas. Segundo Paula, eventos extremos e seus impactos diretos fizeram o mercado rever sua percepção de risco. “Você começa a ver fenômenos climáticos afetando o dia a dia, safra falhando, preço de energia subindo… aquilo deixa de ser acadêmico e passa a impactar fluxo financeiro”, explica a especialista.
Com isso, a agenda ESG deixou de ser periférica e passou a integrar modelos de negócio e decisões de investimento de longo prazo.
Ritmos diferentes
Apesar das dúvidas sobre velocidade, há um consenso: a transição energética já está em curso. Esse avanço, no entanto, é desigual. Enquanto a geração de energia elétrica e a mobilidade já apresentam mudanças relevantes, setores industriais mais intensivos ainda enfrentam barreiras tecnológicas e de custo. O pano de fundo é claro: “a forma como a gente gera e consome energia responde por três quartos das emissões de gases de efeito estufa”, comenta Clarissa.
Custo subestimado
O debate público, porém, não refletiu toda a complexidade do processo. Para Clarissa, houve um excesso de otimismo na forma como a transição foi comunicada. “A gente se encantou com soluções tecnicamente viáveis, mas não foi totalmente transparente sobre os investimentos e adaptações necessários”, diz. Isso inclui não apenas novas tecnologias, mas também infraestrutura, armazenamento de energia, adaptação da demanda e requalificação da força de trabalho.
Segurança energética
O cenário geopolítico recente adicionou uma nova camada à discussão: a segurança energética. Para Paula Kovarsky, esse fator pode acelerar – e não frear – a transição. “Segurança energética passando por renováveis pode ganhar uma importância muito maior do que a própria descarbonização”, acredita. Na mesma linha, Clarissa Lins aponta que o conceito de confiabilidade ganhou peso nas decisões globais. “Quem tem mais opções energéticas, e de preferência domésticas e de baixo carbono, ganha vantagem na atração de investimentos”, afirma.
Brasil: potencial não destravado
O Brasil aparece como um caso emblemático: grande potencial, mas execução limitada. Apesar de uma matriz energética relativamente limpa e vantagens naturais, o país ainda enfrenta entraves estruturais. E o problema, segundo as especialistas, não é falta de dinheiro. “Eu não compro a ideia de que falta capital. Existe dinheiro. O que falta é preparar projetos para serem investíveis”, comenta Paula. Já Clarissa destaca que o Brasil ocupa uma posição intermediária no cenário global. “O Brasil não está nem na frente, nem correndo atrás. Está no meio do caminho em termos de prontidão”, diz. Entre os principais desafios estão regulação, coordenação e previsibilidade de longo prazo.
Carbono como moeda
Um dos conceitos mais relevantes para destravar a transição é o avanço da contabilidade de carbono. E o tema é estrutural. “O carbono é a moeda da transição energética, e toda moeda precisa de um sistema contábil”, acredita Paula. A lógica, então, é permitir que emissões sejam medidas, precificadas e negociadas, criando incentivos econômicos para a descarbonização.
Inevitável, mas não linear
O diagnóstico final é claro: a transição energética é inevitável, mas será marcada por ciclos e ajustes. “Os movimentos exacerbados são um erro. Nem a euforia resolve, nem o retrocesso”, acredita Paula Kovarsky. No fim, o desafio não está em escolher uma única solução, mas em equilibrar tecnologia, custo, tempo e geopolítica em uma agenda que deve se estender por décadas.



