A geração de energia a carvão na China deve aumentar em 2026, após registrar a primeira queda em uma década no ano anterior, de acordo com analistas consultados pela Reuters. O crescimento é atribuído aos impactos do fenômeno El Niño, à guerra no Irã e ao fato de as fontes renováveis não conseguirem acompanhar o ritmo da demanda.
Dados oficiais mostram alta no consumo de energia térmica
Nos primeiros cinco meses do ano, o uso de energia térmica na China cresceu 3,4% em relação ao mesmo período do ano anterior, totalizando 2,53 trilhões de quilowatts-hora (kWh), segundo dados divulgados pelo departamento de estatísticas do país. A energia térmica é gerada predominantemente a partir do carvão, com uma pequena parcela proveniente do gás natural.
As consultorias S&P Global Energy e Wood Mackenzie projetam que a geração a carvão se recupere entre 1,5% e 2%, respectivamente, atingindo 5,4 trilhões de kWh em 2026. Já a empresa de análise de dados Kpler prevê que o consumo de carvão no setor elétrico aumente cerca de 3%, para 2,7 bilhões de toneladas.
Guerra no Irã e preços do gás impulsionam carvão
Com a redução das importações de gás natural liquefeito pela China para mitigar os custos mais elevados decorrentes do bloqueio do Estreito de Ormuz, a S&P estima que a geração a gás cairá 12%, para 300 bilhões de kWh. O carvão ganha espaço para preencher essa lacuna. Sharon Feng, consultora especial da Azure International, sediada em Pequim, afirmou: “O aumento dos preços está levando o gás a assumir o papel de fornecedor de carga de pico, ou seja, será usado apenas quando a demanda por energia atingir picos.”
Desafio da descarbonização e demanda crescente
O aumento no uso do carvão evidencia o desafio da China em descarbonizar seu setor elétrico. Mesmo com a meta de neutralidade de carbono até 2060, a eletrificação da frota de transporte e a expansão dos data centers elevam a demanda por energia. O uso de ar-condicionado também cresce, impulsionado pelas temperaturas acima do normal esperadas com o El Niño neste verão. Feng acrescentou: “Uma recuperação nas exportações está acelerando a demanda do setor manufatureiro.”
O El Niño pode reduzir as chuvas nas hidrelétricas do sudoeste, forçando províncias como Guangdong, Jiangsu e Zhejiang, grandes importadoras de energia hidrelétrica, a recorrer a combustíveis fósseis, segundo Yuxi Wang, analista da Wood Mackenzie.
Energia renovável fica atrás da demanda
A participação do carvão na matriz energética chinesa vem caindo gradualmente desde 2020, quando o presidente Xi Jinping anunciou a meta de carbono neutro até 2060. Naquele ano, a China se comprometeu a instalar 1.200 gigawatts (GW) de capacidade eólica e solar até 2030, meta alcançada seis anos antes, em 2024. Em meados de 2023, as renováveis já superavam o carvão em capacidade total, representando mais da metade do parque energético.
Em 2025, o crescimento da energia renovável levou a geração a carvão ao primeiro declínio em uma década, com sua participação caindo para 51,4%, segundo o think tank Agora Energy. O crescimento geral da demanda de energia moderou-se para 5% em 2025, ante quase 7% em 2024, quando a recuperação pós-pandemia impulsionou a atividade econômica.
Para que a geração fóssil diminua em 2026, o crescimento da energia limpa precisaria superar o crescimento da demanda, que provavelmente voltará a subir 5% ou mais, disse Matt Owen, analista do think tank Ember. No entanto, Owen observou: “A produção de energia renovável desacelerou em 2026 devido à fraca geração eólica, à baixa utilização da energia solar nas províncias do oeste e a uma desaceleração nas novas instalações.”
Contratos de longo prazo garantem espaço para carvão
Qi Qin, analista do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo, com sede em Helsinque, destacou que a China continua construindo novas usinas a carvão a cada ano, garantindo uma quantidade fixa de geração. “Muitas usinas a carvão dependem de contratos de médio e longo prazo para garantir altos volumes anuais de geração, o que torna mais difícil para as energias renováveis substituírem o carvão”, afirmou Qin.



