Brasil precisa de US$ 1,65 bi para planta de terras raras, aponta estudo
Brasil precisa de US$ 1,65 bi para planta de terras raras

O custo para a instalação de uma planta de processamento de terras raras no Brasil é estimado em US$ 1,65 bilhão, segundo estudo inédito do Ministério de Minas e Energia (MME), elaborado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) com financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A estimativa é conservadora e não considera programas de subvenção econômica.

Potencial brasileiro e necessidade de midstream

A pesquisa, que será apresentada ao setor de mineração e ao governo federal como apoio à preparação de uma estratégia nacional de terras raras, aponta que o aperfeiçoamento do elo de midstream — que inclui separação individual dos elementos, purificação, refino e transformações em óxidos, metais e ligas — é um investimento essencial para que o Brasil possa figurar entre os atores mais relevantes no mercado global.

Segundo dados consolidados, o país já conta com atividades de mineração, concentração e beneficiamento consideradas competitivas. Ainda assim, haveria potencial adicional estimado em cerca de 38,7 mil toneladas de óxidos de terras raras (TREO), volume equivalente a aproximadamente 10% da produção mundial estimada para 2025.

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Prioridade é consolidar base mineral

O estudo indica que a prioridade imediata é consolidar a base mineral. Não faz sentido falar em industrialização sem garantir antes a oferta de matéria-prima, destacando que o Brasil ainda está em fase de amadurecimento de projetos e de aumento de escala no upstream (mineração, concentração e beneficiamento).

Além do investimento inicial, o relatório estima em cerca de US$ 525 milhões os custos necessários para manter a operação da planta ao longo de um ano. As estimativas foram elaboradas com base em um projeto hipotético de midstream no Brasil: uma planta com capacidade para processar cerca de 25 mil toneladas anuais de óxidos de terras raras, utilizando uma cesta de matérias-primas representativa dos projetos brasileiros mais avançados.

Cenários de retorno e impacto de políticas públicas

A modelagem testou a operação dessa planta ao longo de 20 anos em três cenários. No cenário conservador, com preços de referência da China e a tributação atual, o retorno ao acionista seria de 11,8% ao ano, com recuperação do investimento em pouco mais de dez anos: viável, mas no limite para atrair um investidor privado.

O quadro muda com a política pública que coloca o setor como prioridade. Com um pacote de incentivos — subvenção de parte do investimento, depreciação acelerada e alívio tributário — o retorno ao acionista sobe para 16,5% ao ano, ultrapassando o patamar considerado atrativo, mesmo mantidos os preços chineses. Em um ambiente de preços fora da China, com garantias de preço e de demanda, o retorno saltaria para 31% ao ano, com payback de cerca de quatro anos.

“A diferença entre um projeto inviável e um projeto atrativo não está no subsolo brasileiro, e sim nas escolhas de política pública”, resume o estudo.

Visão do governo e trajetória gradual

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, enxerga os dados do estudo como uma etapa necessária para que o setor possa mensurar o investimento necessário para atingir as metas de desenvolvimento e agregação de valor que o governo federal almeja. “Esse estudo é um passo fundamental para subsidiar a estratégia nacional de terras raras, liderada pelo presidente Lula. Nosso propósito é desenvolver aqui mesmo a cadeia produtiva, da riqueza do subsolo ao produto final, agregando valor com inteligência científica, tecnologia e inovação. Tudo isso vai gerar empregos de qualidade, mais renda e desenvolvimento social e econômico”, afirmou.

O relatório avalia que o desenvolvimento da cadeia de terras raras no Brasil deve seguir uma “trajetória gradual, seletiva e coordenada de adensamento produtivo”, dividida entre ações de curto, médio e longo prazo.

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Ações de curto prazo

No curto prazo, o objetivo central é destravar e organizar a cadeia. As prioridades incluem a consolidação do upstream competitivo e o aprofundamento da inteligência geológica, além da criação de instrumentos de redução de riscos ao longo do setor. Também entram nesse pacote instrumentos tributários e financeiros voltados à verticalização gradual e a coordenação regulatória, dentre outros pontos.

Ações de médio prazo

No médio prazo, a estratégia sugerida busca escalar e adensar a cadeia produtiva. Entre as ações, o estudo destaca a expansão da capacidade nacional de separação e refino, o avanço para etapas de maior valor, como metais, ligas e magnetos, a criação de hubs regionais de processamento e inovação e a integração com setores consumidores estratégicos, como defesa, mobilidade elétrica e energia renovável.

Ações de longo prazo

Em longo prazo, a meta passa a se integrar e reposicionar o Brasil em cadeias globais de maior valor agregado. O estudo prevê a consolidação de uma cadeia integrada entre mina, refino, metalurgia e magnetos, o fortalecimento da circularidade e da reciclagem, a ampliação da produção de componentes avançados, a inserção internacional em cadeias estratégicas e o desenvolvimento de políticas de conteúdo nacional e compras públicas.