O presidente da Associação das Empresas de Loteamento e Desenvolvimento Urbano do Brasil (Aelo), Caio Portugal, afirmou nesta segunda-feira, 3, em São Paulo, durante a abertura do Fórum Estadão Loteamento Urbano 2026, que o setor de loteamentos sofre com uma percepção “equivocada” por parte do governo, que afeta o debate público e precisa ser revista pelos eleitos em outubro. Segundo ele, os órgãos governamentais não oferecem recursos acessíveis para a produção de terra urbanizada por acreditarem que isso incentivaria a “especulação imobiliária”.
“Há uma percepção ideologizada, equivocada de não entender o que esse setor entrega. É muito difícil você romper com os paradigmas”, destacou Portugal, em entrevista ao Estadão durante o evento, que teve transmissão online pelas redes sociais.
Crédito e financiamento: os desafios do setor
Portugal apontou que o ambiente de negócios é impactado pela taxa de juros elevada. “Se a gente pegar de janeiro de 2023, a Selic estava em 13,75%. Hoje a Selic está em 14,25% e a perspectiva talvez seja na próxima reunião do Copom para chegar a 14%”, disse. Ele lembrou que o crédito imobiliário tradicional não atende o setor de loteamento, que nunca teve linhas específicas de financiamento bancário.
“O conselho curador do FGTS não entende que o lote é habitação”, afirmou. As empresas, então, recorrem a formas criativas de financiamento: “Primeiro, através do próprio crédito que ele financia, ou seja do consumidor que compra aquele lote para pagar em 100 meses, 200 meses. Tem loteadores que vão para até 420 meses de financiamento”, explicou, citando também operações com Certificados de Recebíveis Imobiliários, equity e securitização de recebíveis.
Percepção equivocada do governo
O presidente da Aelo criticou a visão do governo sobre o setor: “Existe uma crença em Brasília, e eu falo em Brasília porque ela permeia o Ministério da Fazenda, o Ministério do Planejamento, algumas estatais e o próprio BNDES de alguma forma, que, se você dá recurso direcionado e acessível, você está incentivando a especulação imobiliária”. Ele argumentou que “ninguém faz loteamento para ficar sentado em cima, porque só o custo de capital que você tem, o custo de carregamento, não incentiva isso”.
Portugal destacou que o setor gera desenvolvimento econômico, equipamentos públicos, escolas, postos de saúde, mobilidade e integração. “Isso aqui é uma indústria, indústria imobiliária, é o segmento de produção de lote autorizado, que vai abastecer quem? A sociedade”, completou.
Prioridades para os próximos eleitos
Na agenda da Aelo para os futuros governantes, a prioridade é a segurança jurídica. “O pleito zero é a segurança jurídica. A aplicação correta da legislação”, disse. Ele lembrou que o setor é uma das únicas atividades privadas com tipificação penal para o não cumprimento do plano de loteamento. “A gente tem de ter uma política de eficiência fiscal. Isso não significa aumentar ou diminuir a austeridade, significa ter previsibilidade”, acrescentou.
O presidente da Aelo também defendeu a eficiência econômica e a produtividade. “Um país que só investe 17% do seu PIB em capital bruto, acho que esse setor mereceria ser ouvido de uma forma melhor. Por quê? Volto a dizer, o que a gente faz é política de Estado. Então, o que a gente precisa? Previsibilidade, transparência e convergência”, concluiu.
Debates e temas do evento
O Fórum Estadão Loteamento Urbano 2026 também abordou temas como reforma tributária, licenciamento, ambiente de negócios, crédito, segurança jurídica e saneamento. Os debatedores destacaram que o desenvolvimento urbano formal pode contribuir para a preservação ambiental, a inclusão social e a oferta de infraestrutura adequada. O caso da Represa do Guarapiranga, em São Paulo, foi citado como exemplo, e o papel da Sabesp, da Arsesp e dos empreendedores urbanos na expansão da infraestrutura também foi discutido.



