PMEs lideram alta das recuperações judiciais no Brasil
PMEs lideram alta das recuperações judiciais

As pequenas e médias empresas (PMEs) tornaram-se as principais protagonistas no cenário de recuperações judiciais no Brasil, segundo levantamento divulgado pelo Serasa Experian. No primeiro semestre de 2026, os pedidos de recuperação judicial feitos por esse segmento cresceram 45% em relação ao mesmo período do ano anterior, superando pela primeira vez as grandes companhias. O movimento reflete o impacto prolongado da alta taxa de juros e do endividamento acumulado nos últimos anos.

Cenário de endividamento pressiona PMEs

De acordo com a economista do Serasa Experian, Luiza Antunes, as PMEs enfrentam uma combinação de fatores adversos: crédito caro, inflação persistente e queda no consumo. "O custo do crédito continua elevado, e as pequenas empresas, que dependem de financiamento de curto prazo, são as mais afetadas", afirmou. O levantamento aponta que 67% dos pedidos de recuperação judicial no período vieram de empresas com faturamento anual de até R$ 300 milhões, um recorde histórico.

Os dados mostram que os setores de serviços, comércio e indústria lideram os pedidos, com destaque para o varejo, que responde por 28% dos casos. "O varejo sofre com a queda do poder de compra da população, o que reduz as vendas e compromete o fluxo de caixa", explicou Antunes. A especialista também destacou que muitas empresas que sobreviveram à pandemia agora estão sucumbindo ao peso das dívidas contraídas para se manterem ativas.

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Número de pedidos atinge maior nível desde 2020

No total, foram registrados 1.250 pedidos de recuperação judicial no primeiro semestre, o maior número desde 2020, quando a crise sanitária atingiu o auge. O aumento foi puxado principalmente pelas micro e pequenas empresas, que tiveram alta de 52% nas solicitações. "O cenário é preocupante, pois essas empresas são responsáveis por grande parte dos empregos no país", alertou a economista.

O perfil das empresas que buscam proteção judicial também mudou. Antes, as grandes corporações dominavam os pedidos; agora, as PMEs representam 73% do total. Entre as razões apontadas, estão a alta da inadimplência, o aumento do custo de insumos e a dificuldade de renegociar dívidas com os bancos. "Os bancos estão mais seletivos na concessão de crédito, e as empresas menores acabam sem alternativas", completou Antunes.

Especialistas projetam continuidade do movimento

Para o advogado especialista em direito empresarial, Ricardo Tavares, a tendência deve se manter nos próximos meses. "A menos que haja uma queda significativa na taxa Selic, o número de recuperações judiciais deve continuar crescendo", afirmou. Ele ressalta que a reestruturação de dívidas é um instrumento importante para evitar a falência, mas que muitas empresas não conseguem se recuperar plenamente devido ao ambiente macroeconômico desfavorável.

O cenário também acende um alerta para o mercado de trabalho. Estima-se que as empresas que entraram com pedido de recuperação judicial no primeiro semestre empreguem cerca de 120 mil trabalhadores. "Se essas empresas não conseguirem se reerguer, há risco de demissões em massa", ponderou Tavares. Ele sugere que o governo adote medidas de estímulo, como linhas de crédito subsidiadas e prazos maiores para pagamento de tributos.

Impacto na economia e perspectivas para o segundo semestre

O aumento das recuperações judiciais entre PMEs tem impacto direto na economia, pois essas empresas são responsáveis por cerca de 30% do PIB brasileiro e por mais da metade dos empregos formais. A alta dos pedidos também pressiona o sistema financeiro, que precisa provisionar perdas com calotes. "Os bancos estão mais cautelosos, o que reduz a oferta de crédito para todos, criando um ciclo vicioso", explicou a economista Luiza Antunes.

Para o segundo semestre, as projeções indicam que o número de pedidos pode superar 2.500, caso a Selic permaneça em patamar elevado. "A expectativa é de que o Banco Central comece a cortar os juros no próximo ano, mas até lá, muitas empresas não conseguirão esperar", concluiu Tavares. Enquanto isso, as PMEs buscam alternativas como a renegociação de dívidas e a busca por sócios investidores para evitar a falência.

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O estudo do Serasa Experian reforça a necessidade de políticas públicas voltadas para o apoio às pequenas e médias empresas, que são a espinha dorsal da economia nacional. "Precisamos de um ambiente de negócios mais favorável, com menos burocracia e acesso a crédito barato", defendeu Luiza Antunes. A esperança é que, com a queda dos juros, o cenário comece a melhorar em 2027.