Na corrida da IA, Brasil é fornecedor e refém
Na corrida da IA, Brasil é fornecedor e refém

O Brasil se tornou um fornecedor essencial de matéria-prima para a inteligência artificial (IA) global, mas ao mesmo tempo se coloca em posição de refém tecnológico, alertam especialistas. O país é rico em nióbio, terras raras e minérios essenciais para a produção de chips e componentes eletrônicos, mas não detém o domínio das tecnologias que agregam valor a esses insumos.

Fornecedor de matérias-primas estratégicas

O Brasil possui a maior reserva de nióbio do mundo, com cerca de 98% do total global, além de grandes jazidas de terras raras, lítio e grafite. Esses minerais são fundamentais para a fabricação de semicondutores, baterias e outros componentes de IA. No entanto, a maior parte da produção é exportada sem beneficiamento, gerando baixo valor agregado.

“O Brasil é um gigante em recursos naturais, mas um anão em inovação tecnológica”, afirma o professor de engenharia de materiais da USP, Carlos Alberto de Oliveira. “Enquanto países como China e Estados Unidos dominam o processamento e a fabricação de chips, ficamos com a parte mais simples da cadeia.”

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Dependência tecnológica e soberania digital

A dependência brasileira de tecnologia estrangeira para IA é evidente. O país importa praticamente todos os chips e equipamentos de alto valor, além de softwares e plataformas de nuvem. “Sem capacidade de produzir semicondutores, o Brasil fica refém de decisões geopolíticas e comerciais de outros países”, destaca a pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados, Maria Fernanda Ribeiro.

Dados do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações mostram que o Brasil investe apenas 1,2% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, enquanto a média da OCDE é de 2,6%. A falta de investimento em inovação e a baixa formação de profissionais qualificados na área de tecnologia são apontadas como principais gargalos.

Oportunidades e riscos na corrida da IA

Apesar dos desafios, o Brasil tem potencial para se tornar um ator relevante na cadeia de IA, especialmente em áreas como agricultura de precisão, saúde e energia. O país já desenvolve aplicações de IA para monitoramento de florestas, previsão de safras e diagnósticos médicos, mas ainda carece de escala e competitividade internacional.

“Precisamos de uma política industrial clara para o setor de tecnologia, com incentivos fiscais, financiamento para startups e parcerias com universidades”, defende o presidente da Associação Brasileira de Inteligência Artificial, João Pedro Silva. “Caso contrário, continuaremos sendo apenas fornecedores de matéria-prima e consumidores de tecnologia alheia.”

Investimentos em inovação como saída

Para reverter o quadro, especialistas apontam a necessidade de aumentar os investimentos em pesquisa básica e aplicada, além de criar um ambiente regulatório favorável à inovação. O governo federal lançou recentemente a Estratégia Brasileira de Inteligência Artificial (EBIA), que prevê R$ 1,5 bilhão em recursos até 2025, mas o montante é considerado insuficiente por analistas.

“O Brasil precisa ousar mais, como fez com a Embraer e a Petrobras. Temos capacidade técnica e recursos naturais para liderar em nichos específicos da IA, mas falta vontade política e visão de longo prazo”, conclui Oliveira.

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