O Itaú Unibanco passou a atuar nos bastidores da Azzas 2154 para forçar um entendimento na disputa societária entre os acionistas de referência da companhia, segundo apurou a Coluna Lauro Jardim, do GLOBO. A avaliação do banco é que a indefinição no comando já começa a preocupar credores e a afetar a percepção de risco da empresa no mercado.
De acordo com a coluna, a instituição financeira, que participou da estruturação do negócio que deu origem à Azzas, vem cobrando das principais lideranças um calendário para as negociações. A preocupação central é que o impasse prolongado comprometa a governança e a capacidade de a companhia acessar novas linhas de crédito e financiamentos.
O que está em jogo na Azzas
A Azzas 2154 nasceu da fusão entre Arezzo & Co e Grupo Soma, concluída em 2024. A operação criou um dos maiores grupos de moda do Brasil, com quase R$ 10 bilhões em receita anual e cerca de 2 mil pontos de venda no país e no exterior. O portfólio reúne marcas como Arezzo, Schutz, Reserva, Farm, Hering e Animale.
Desde a conclusão do negócio, a convivência entre os grupos que controlavam as duas antigas empresas nunca foi totalmente tranquila. Executivos ligados à Arezzo e ao Soma passaram a disputar espaços na gestão, e as divergências chegaram ao conselho de administração, ganhando contornos públicos.
O centro do conflito envolve justamente a divisão de poder entre os acionistas de referência. Ainda não há consenso sobre o tamanho e a composição das cadeiras no conselho, a autonomia da diretoria executiva para decisões estratégicas e o modelo de sucessão que será adotado na companhia.
Pressão do Itaú aumenta
Segundo a coluna, o Itaú tem usado seu peso como um dos principais credores da empresa para tentar destravar as conversas. Interlocutores do banco teriam alertado conselheiros para os riscos de uma exposição prolongada do conflito, especialmente em um momento de juros mais altos e de maior seletividade do crédito.
Além disso, o banco acompanha com atenção o impacto da disputa sobre o valor das ações da Azzas. Papéis de companhias com governança instável tendem a sofrer um desconto, o que eleva o custo de capital e dificulta a captação de recursos para o crescimento.
A pressão, segundo fontes, não se limita a recomendações formais. O Itaú tem feito articulação direta com conselheiros e executivos ligados aos dois lados para que as conversas avancem. A expectativa é de que um acordo possa ser anunciado antes da próxima reunião do conselho, marcada para os próximos meses.
Uma solução societária?
Nos bastidores, algumas alternativas já são discutidas. Uma delas envolve a reestruturação do conselho de administração, com a entrada de conselheiros independentes para atenuar a disputa entre os grupos. Outra possibilidade é a definição de um acionista de controle mais claro, o que reduziria a ambiguidade nas decisões de gestão.
Há ainda quem fale em uma repactuação de direitos entre os principais acionistas, com a criação de mecanismos para evitar que desentendimentos estratégicos paralisem a empresa. As conversas, porém, são tratadas com sigilo e ainda não há decisão tomada.
O Itaú, por sua vez, tenta se posicionar como um facilitador do acordo, e não como parte interessada na disputa. O banco entende que a resolução do impasse é condição essencial para a Azzas retomar sua agenda de crescimento de forma sustentável, com previsibilidade para o mercado.
Impacto no setor de moda
A situação da Azzas é observada de perto pelo restante do setor varejista. A fusão entre Arezzo e Soma foi vista como uma das maiores consolidações do mercado de moda brasileiro e serviu de referência para outras companhias que avaliam combinações de negócios.
Para analistas, o desfecho da disputa societária da Azzas será um teste importante para o modelo de fusões entre empresas com estruturas acionárias fragmentadas. Se o entendimento vier rápido, o case pode se tornar um exemplo de governança bem resolvida. Caso contrário, o episódio pode esfriar o apetite de investidores por empresas resultantes de grandes combinações.
A companhia ainda não se manifestou oficialmente sobre a pressão do Itaú ou sobre o andamento das negociações. Até o momento, o assunto segue restrito aos bastidores, mas o movimento do banco indica que o tempo para uma solução está ficando cada vez mais curto.



