A SpaceX abrirá capital nesta sexta-feira (12) e já é precificada em US$ 1,75 trilhão. O valor do mega IPO pode ser o maior da história e, com isso, também há riscos próprios, segundo analistas. Vale a pena investir no IPO da SpaceX?
Nickolas Lobo, especialista em investimentos da Nomad, avalia que investir em um IPO exige um nível de diligência que vai muito além do impulso de acompanhar o entusiasmo do mercado. Segundo ele, o histórico recente de grandes ofertas mostra que muitas vezes há uma distância significativa entre o otimismo da precificação inicial e o desempenho efetivo do ativo no médio e longo prazo. Na leitura do especialista, o investidor costuma ser atraído pela narrativa de disrupção ou pelo diferencial competitivo da empresa, mas pode acabar pagando caro demais sem medir adequadamente quanto do crescimento futuro já está embutido no preço — e quanto dessa trajetória pode ser afetada por riscos regulatórios, microestruturais, macroeconômicos ou geopolíticos.
Contexto de mercado
Lobo também destaca que o ambiente atual é diferente daquele observado na grande janela de IPOs entre 2020 e 2021, quando juros muito baixos e excesso de liquidez global facilitaram a entrada na bolsa de empresas ainda pouco maduras e com modelos deficitários. Na avaliação dele, o aperto monetário iniciado em 2022 mudou esse quadro e expôs a fragilidade de muitas dessas teses, à medida que o mercado passou a punir de forma mais severa a queima de caixa excessiva e os múltiplos esticados. Nesse contexto, diz ele, os investidores passaram a exigir mais disciplina financeira, crescimento sustentável e proteção de margens, o que ajuda a explicar o desempenho fraco de parte relevante dos grandes IPOs lançados naquele ciclo.
Valuation e projeções
“Para justificar esse número, o investidor precisa assumir premissas que ainda não estão materializadas: expansão contínua do Starlink para centenas de milhões de usuários, crescimento exponencial da divisão de IA, e projetos como data centers orbitais e colonização de Marte que hoje existem apenas como visão estratégica”, afirma Lucas Cavalcante, consultor financeiro e fundador da Gus Consultoria. Ele destaca que a Morningstar, após revisar o prospecto, chegou a uma estimativa independente de US$ 780 bilhões com base em fluxo de caixa descontado, o que sugere um valuation cerca de 55% acima do que parte dos analistas considera razoável.
Para ele, os números apresentados no formulário S-1 protocolado na SEC reforçam essa percepção: a empresa encerrou 2025 com prejuízo líquido próximo de US$ 5 bilhões e, no primeiro trimestre de 2026, adicionou mais US$ 4,3 bilhões em perdas, pressionada sobretudo pela incorporação da xAI, que estaria consumindo cerca de US$ 1 bilhão por mês.
Ainda assim, Cavalcante avalia que isso não elimina a tese de investimento para todos os perfis. Na visão dele, o ponto central é que o investidor tenha clareza de que não está diante de uma companhia já lucrativa e com trajetória previsível de expansão, mas de uma aposta de longo prazo em uma mudança estrutural da infraestrutura global. Nesse contexto, o ativo pode fazer sentido para quem tem horizonte mais extenso e tolerância elevada a risco, mas tende a ser inadequado para investidores em busca de maior segurança ou previsibilidade de retorno.
Riscos para o investidor
Para analistas, o risco mais evidente para o investidor está na própria precificação da oferta. Para Cavalcante, o múltiplo embutido no IPO é muito elevado em relação ao de empresas já consolidadas, o que reduz a margem de segurança e deixa o papel mais vulnerável a qualquer frustração operacional, atraso em projetos ou mudança no ambiente macroeconômico. Em um cenário assim, mesmo pequenas decepções podem provocar correções relevantes.
Outro ponto central, segundo ele, é a estrutura de governança. Cavalcante destaca que o modelo de ações com classes diferentes preserva o controle absoluto de Elon Musk mesmo após a abertura de capital, o que limita fortemente a influência dos acionistas minoritários. Na prática, isso cria o risco de decisões estratégicas priorizarem outros negócios ligados ao empresário, ainda que isso não seja o melhor caminho para quem entrar no IPO.
Além disso, ele chama atenção para a incorporação da xAI ao balanço poucos meses antes da oferta, o que adiciona mais queima de caixa e aumenta a complexidade da tese para o investidor. Na visão de Cavalcante, quem comprar a ação estará se expondo não apenas ao negócio principal da SpaceX, mas também a uma frente de inteligência artificial ainda em estágio inicial e intensivo em investimentos. Ele também pondera que grandes IPOs costumam viver um movimento de euforia na estreia, seguido por meses de forte volatilidade, o que amplia o risco para quem entra olhando o curto prazo.
Antonio Patrus, diretor da Bossa Invest, afirma que o potencial da SpaceX é amplamente reconhecido pelo mercado e ajuda a explicar o forte interesse global pela companhia. Ainda assim, ele pondera que uma eventual abertura de capital não deve ser analisada apenas pelo apelo da marca ou pela relevância estratégica do negócio, mas também pela compatibilidade com o perfil de risco, os objetivos e o momento da carteira de cada investidor. Na avaliação dele, a empresa construiu uma posição diferenciada em áreas como infraestrutura espacial, lançamentos comerciais, satélites e conectividade, mas isso não elimina riscos importantes, como questões regulatórias, desafios operacionais, valuation elevado e a necessidade de manter um nível de execução excepcional ao longo do tempo.
Detalhes do IPO
A SpaceX precificou nesta quinta-feira a maior oferta pública inicial de ações (IPO) já realizada nos Estados Unidos em US$ 135 por papel, tornando a fabricante de foguetes e espaçonaves de Elon Musk uma das empresas mais valiosas do mundo. O IPO movimentou um montante recorde de US$ 75 bilhões com a venda de 555,56 milhões de ações, avaliando a empresa de serviços espaciais, satélites e inteligência artificial em US$ 1,77 trilhão, um recorde para um IPO.
A SpaceX ocupará o sétimo lugar em valor de mercado entre as empresas listadas nos EUA quando suas ações começarem a ser negociadas na Nasdaq na sexta-feira, embora tenha apresentado prejuízo no ano passado e outras empresas de mega capitalização superem sua receita em várias ordens de grandeza.
Bolsa e ticket
O IPO da SpaceX ocorrerá na bolsa de valores Nasdaq, sob o código de negociação (ticker) SPCX.
Como comprar no Brasil
O lançamento do BDR da SpaceX acontecerá simultaneamente à estreia da companhia de Elon Musk em Wall Street, prevista para ser o maior IPO da história do mercado de capitais americano, conforme informou a B3 (B3SA3) nesta quarta-feira (10).



