A produção industrial brasileira encerrou o segundo semestre com disseminação de taxas negativas e interrupção da trajetória ascendente, conforme dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em junho, a indústria registrou queda de 1,8% em relação a maio, o maior recuo para o mês em 12 anos, desde junho de 2014, quando a retração foi de 2,9%.
Resultado mensal e impacto acumulado
Com esse resultado, a indústria acumula uma perda de 1,8% no segundo trimestre, após dois trimestres consecutivos de alta. No primeiro trimestre, a expansão havia sido de 2,1%, e no quarto trimestre de 2024, de 1,5%. A queda de junho foi generalizada, atingindo 24 dos 25 ramos pesquisados, com destaque para as indústrias extrativas, que recuaram 4,5%, e para a fabricação de veículos automotores, que caiu 4,2%.
Na comparação com junho de 2024, a produção industrial apresentou alta de 1,5%, mas o ritmo desacelerou frente aos meses anteriores. No acumulado do primeiro semestre, o crescimento foi de 3,4%, ainda positivo, mas com sinais de perda de fôlego.
Análise dos pesquisadores
André Macedo, gerente da pesquisa do IBGE, explicou que a interrupção da trajetória ascendente reflete um movimento de correção após um período de crescimento robusto. "O resultado de junho veio forte e disseminado, mas é importante destacar que a base de comparação estava elevada, após dois trimestres de expansão", afirmou. Ele também ressaltou que a queda foi puxada principalmente por setores que haviam tido desempenho forte, como extrativas e veículos.
Macedo destacou que a disseminação das taxas negativas é um sinal de que a indústria pode estar entrando em um período de estabilização, após o ciclo de alta. "A tendência de curto prazo perdeu força, mas o acumulado do semestre ainda mostra crescimento", completou.
Impacto econômico e perspectivas
A queda de junho surpreendeu analistas, que esperavam uma variação próxima da estabilidade. O resultado reforça a percepção de desaceleração da atividade industrial, que pode impactar o PIB do segundo trimestre. No entanto, o mercado ainda projeta crescimento moderado para o ano, sustentado pelo consumo das famílias e pelo mercado de trabalho aquecido.
O IBGE também revisou os dados de maio, que passaram de alta de 0,3% para estabilidade (0,0%). A produção industrial acumula no ano alta de 3,4%, mas a média móvel trimestral indica tendência de desaceleração.
Especialistas apontam que a alta dos juros e a incerteza fiscal podem frear novos investimentos, mas o setor de bens de capital ainda opera com capacidade ociosa elevada. A indústria de transformação, que responde pela maior parte do parque fabril, caiu 1,6% em junho, após alta de 1,2% em maio.
Detalhamento por setores
Entre as atividades que mais contribuíram para a queda estão a extração de minerais metálicos (-5,1%), a fabricação de coque e derivados de petróleo (-3,8%) e a metalurgia (-3,2%). Por outro lado, a fabricação de produtos alimentícios avançou 1,2%, único setor com alta no mês.
Na comparação anual, a indústria de transformação cresceu 2,3%, enquanto a extrativa recuou 0,8%. O setor de bens de consumo duráveis caiu 2,1% em junho, enquanto o de bens intermediários recuou 1,9%.
O IBGE ressalta que a pesquisa abrange 25 ramos, 79 classes industriais e 273 produtos, sendo o principal indicador conjuntural da atividade industrial no país.



