As maiores falhas de governança raramente começam com grandes desvios. Em geral, começam com uma ou outra exceção às regras. Uma norma flexibilizada para atender a uma necessidade considerada urgente. Um procedimento simplificado para capturar uma oportunidade. Uma decisão justificada pela pressão por resultados. Isoladamente, cada exceção parece razoável. O problema surge com o fato de se admitir que exceções são aceitáveis.
Governança: um desafio persistente nas empresas brasileiras
Esse mecanismo é uma das razões pelas quais governança continua sendo um tema tão relevante para as empresas brasileiras. Nunca tivemos tantos programas de compliance, auditorias, controles internos e mecanismos de supervisão. Ainda assim, crises de reputação, conflitos de interesse e falhas de conduta continuam ocorrendo. O desafio está em fazê-las prevalecer quando incentivos econômicos e princípios organizacionais apontam em direções diferentes.
O ambiente em que as exceções se multiplicam é previsível. Empresas convivem diariamente com pressões competitivas, metas de desempenho, demandas de acionistas e relações complexas com reguladores, governos, fornecedores e clientes. Em cada uma dessas frentes, surgem situações em que ganhos de curto prazo parecem justificar flexibilizações. É justamente aí que a governança é colocada à prova.
Dilemas e a defesa de interesses
Dilemas são inerentes à atividade econômica. A governança existe para assegurar que decisões relevantes sejam tomadas de forma compatível com os objetivos permanentes da organização, e não apenas com as conveniências do momento. Esse desafio ultrapassa os limites da própria empresa. Em economias complexas, decisões regulatórias, concorrenciais e de supervisão podem gerar impactos econômicos expressivos para empresas e setores inteiros. Os incentivos para influenciá-las são, portanto, igualmente expressivos. A defesa legítima de interesses faz parte do funcionamento de uma economia de mercado.
O risco surge quando essa defesa deixa de observar critérios de transparência e equidade, abrindo espaço para que órgãos reguladores e de supervisão passem a refletir os interesses dos agentes que deveriam fiscalizar. A qualidade institucional de um país depende da existência de limites claros entre representação legítima e formas de influência incompatíveis com o interesse público. A integridade das organizações privadas é parte indissociável dessa equação.
Governança vai além do compliance
Por isso, governança é mais do que compliance. Trata da distribuição de poder dentro das organizações, das relações entre acionistas, conselhos e executivos e dos mecanismos criados para alinhar interesses de curto e longo prazo. Os dados ajudam a dimensionar o desafio. Estudos da OCDE mostram que executivos seniores estiveram envolvidos na maioria dos casos internacionais de suborno analisados pela instituição. Levantamentos da Association of Certified Fraud Examiners indicam que fraudes cometidas nos níveis mais altos da organização produzem perdas significativamente maiores do que aquelas observadas nos demais níveis hierárquicos.
O verdadeiro teste da governança ocorre onde se concentram as decisões mais relevantes. Presidentes, diretores, conselheiros e controladores possuem a capacidade de criar enorme valor para suas organizações. Possuem também a capacidade de expô-las a riscos igualmente relevantes.
O papel decisivo dos conselhos
Nesse contexto, o papel dos conselhos torna-se decisivo. Cabe a eles preservar a capacidade da organização de criar valor de forma sustentável. Aprovar estratégias e acompanhar resultados financeiros fazem parte dessa missão, mas o papel decisivo dos conselhos está em assegurar que os resultados sejam alcançados dentro dos valores da organização, especialmente quando surgem pressões para privilegiar ganhos imediatos.
A experiência empresarial mostra que muitas crises não surgem durante períodos de dificuldade, mas durante ciclos prolongados de sucesso. Resultados excepcionais podem reduzir o questionamento interno, enfraquecer mecanismos de supervisão e criar tolerância a exceções. Organizações passam a confundir desempenho com infalibilidade. Quando isso ocorre, pequenas transgressões são ignoradas em nome dos resultados. Desvios mais graves passam a ser tolerados. Por fim, a organização descobre que uma reputação construída ao longo de décadas pode ser destruída em poucos dias.
Governança como pilar de confiança e crescimento
Em última instância, governança não é medida pela quantidade de políticas existentes nem pela extensão dos relatórios publicados. Ela é medida pela capacidade de preservar princípios quando existem razões aparentemente convincentes para abandoná-los. Organizações sólidas não são aquelas que nunca enfrentam dilemas. São aquelas capazes de enfrentá-los sem perder de vista os valores que justificam sua existência.
Essa escolha produz efeitos que vão além dos limites da própria empresa. Ela fortalece a confiança, melhora a qualidade das instituições e contribui para um ambiente de negócios mais favorável ao investimento, à inovação e ao crescimento econômico.



