A culinarista Raimunda Valdira, conhecida como Dirinha, ex-professora de artes, transformou as pinturas rupestres do Parque Nacional da Serra da Capivara em decorações comestíveis para os pratos servidos em seu restaurante em São Raimundo Nonato, sul do Piauí. A ideia surgiu após o filho, então com 12 anos, pedir que desenhasse um dragão em um bolo de aniversário. A partir desse pedido, Dirinha percebeu que também poderia reproduzir a imagem da Pedra Furada, um dos principais símbolos do sítio arqueológico.
Origem da ideia e técnica
"Enquanto eu desenhava o dragão, me veio a ideia de desenhar mais coisas. Eu passei glacê em uma bandeja e fiz o desenho. Foi daí que começou tudo. Foi um achado, uma descoberta incrível", relembrou Dirinha ao g1. Os ingredientes utilizados são típicos da região sul do estado, como carne de carneiro e de sol, requeijão Cardoso e macaxeira, plantada na própria roça de Dirinha, que também é decorada com desenhos da Serra. "Plantei coentro no formato dos desenhos rupestres. Não sei o que mais vem por aí, mas Jesus sabe", brincou.
Aperfeiçoamento e cardápio
Após mais de 10 anos aperfeiçoando a técnica, Dirinha já reproduziu diversos desenhos e hoje leva menos de um minuto para criar as pinturas inspiradas nas encontradas no parque. As decorações ultrapassaram os pratos tradicionais e estão presentes em saladas, doces e até frutas, como melancias e mangas. Segundo ela, os itens mais pedidos do cardápio são o carneiro com macaxeira e a torta de carneiro à moda rupestre, que resumem a identidade da região. "Tudo dá em desenho. Simplesmente vou desenhando. A cada dia, parece que Deus vai me dando mais ideias. Sou muito agraciada por Ele", afirmou.
Cena do beijo e inspiração
Para os clientes que visitam o restaurante em casal, Dirinha costuma reproduzir a tradicional cena do beijo, uma das pinturas mais conhecidas da Serra da Capivara, popularmente chamada de "o primeiro beijo das Américas". "Se for casal, eu faço a cena do beijo com doce de leite, preencho com requeijão e ponho eles para beijar na boca", brincou. A culinarista contou que a arqueóloga franco-brasileira Niède Guidon, que liderou pesquisas na Serra da Capivara e ajudou a transformar o entendimento sobre a presença humana nas Américas, é uma inspiração para ela. Niède morreu em junho de 2026, aos 92 anos. "Ela teve coragem, disposição e dedicação total ao nosso patrimônio. Se não fosse ela, eu não teria essa ideia", afirmou Dirinha.



