A revista britânica The Economist publicou uma análise, na quinta-feira (30/7), na qual afirma que a Embraer, terceira maior fabricante de aviões comerciais do planeta, pode estar diante da melhor oportunidade em décadas para desafiar a hegemonia de Airbus e Boeing. A publicação reconhece que a companhia brasileira tem dimensão muito inferior às duas gigantes, mas destaca que a fabricante vive "alguns anos extraordinários".
Segundo o artigo, o interesse não se limita aos jatos comerciais de menor porte: também cresce a demanda pelos jatos executivos e militares produzidos pela Embraer. Os números citados pela publicação mostram que a empresa entregou 141 aeronaves em 2021 e pode chegar a 255 neste ano. Em julho, a companhia anunciou uma carteira de pedidos recorde, de US$ 34,5 bilhões.
Desempenho em bolsa e expectativa de crescimento
Desde o início de 2021, as ações da Embraer se valorizaram cerca de dez vezes, desempenho bastante superior ao registrado por Airbus e Boeing no mesmo período. Para Francisco Gomes Neto, presidente da empresa, ainda existe espaço para "um crescimento substancial" nos próximos anos.
A The Economist lista uma série de "ventos favoráveis" que beneficiam a fabricante brasileira. Entre eles, estão os atrasos nas entregas de Airbus e Boeing, que acumulam cerca de 16 mil encomendas e filas de espera que podem chegar a dez anos para alguns modelos. Também contribuem o aumento da procura por voos diretos entre aeroportos menores e a expansão dos mercados de jatos executivos e militares.
Planos ambiciosos e riscos
Esse cenário, avalia a revista, abre espaço para um movimento mais audacioso: o desenvolvimento de um jato executivo de grande porte. "Um passo ainda mais ousado — e arriscado — seria lançar um avião comercial maior para competir diretamente com Airbus e Boeing, que devem apresentar substitutos para seus principais modelos de corredor único apenas no fim da década de 2030", acrescenta.
A publicação observa que, como as aeronaves atuais continuam vendendo bem, as duas grandes fabricantes têm poucos incentivos para investir pesadamente no curto prazo. Isso, na visão dos analistas, poderia abrir uma oportunidade rara para a Embraer. A revista pondera, porém, que "romper esse duopólio seria um desafio enorme".
O texto recorda a tentativa fracassada da canadense Bombardier e cita o presidente da Airbus, Guillaume Faury, que já aconselhou a Embraer a "pensar duas vezes" antes de seguir esse caminho. Em contrapartida, uma iniciativa desse tipo levaria a fabricante brasileira "a outro patamar". "Talvez a empresa nunca mais tenha uma oportunidade tão favorável para aproveitar sua experiência no desenvolvimento e comercialização de aviões comerciais", afirma a revista.
Apesar do potencial, a decisão divide opiniões dentro da própria Embraer e exigiria parceiros para financiar um projeto estimado em cerca de US$ 10 bilhões. Enquanto isso, Gomes Neto afirma que a companhia está "muito confortável com a situação que temos hoje".
Fundação e primeiros passos
A Embraer é atualmente a terceira maior fabricante de jatos comerciais do mundo, atrás de Boeing e Airbus, e líder global no segmento de aeronaves de até 150 assentos. Com sede em São José dos Campos (SP), a companhia produz aviões militares, comerciais, executivos e agrícolas. Segundo a empresa, em toda a sua história já foram produzidas e entregues mais de 9 mil aeronaves para mais de 100 países.
A empresa foi fundada em 1969, com apoio do governo brasileiro, depois de décadas de esforços privados e governamentais para criar uma indústria aeronáutica competitiva no país. Além de fomentar um setor industrial de alta tecnologia, havia o objetivo de facilitar a conexão entre diferentes regiões do Brasil.
As origens da então Empresa Brasileira de Aeronáutica estão ligadas ao Centro Técnico Aeroespacial (CTA) e ao Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Em 1965, técnicos formados pelo instituto começaram a trabalhar em um projeto liderado pelo engenheiro aeronáutico e então major da Força Aérea Brasileira (FAB) Ozires Silva. O projeto era um avião bimotor turboélice com capacidade para cerca de 20 passageiros. Um protótipo, batizado de Bandeirante, fez seu primeiro voo em 1968.
O Bandeirante tinha como vantagem a capacidade de operar em pistas curtas e não pavimentadas, o que permitia chegar a aeroportos menores, sem estrutura para jatos de grande porte. Com isso, poderia conectar regiões mais isoladas, impulsionando a aviação regional e a integração nacional. Foi nesse contexto que, em 19 de agosto de 1969, a Embraer foi criada para produzir em série o Bandeirante, com Ozires Silva como presidente. Ao longo da década de 1970, outros modelos ganharam destaque, como o monomotor EMB-200 Ipanema, destinado à pulverização agrícola.
Crise, privatização e recuperação
A trajetória da Embraer teve altos e baixos. A companhia quase chegou à falência no fim dos anos 1980. "Um período mais intenso de turbulência financeira marcou o início da década de 1990 e levou à privatização da Embraer em dezembro de 1994", lembrou a empresa no ano passado, ao celebrar 55 anos.
A privatização ocorreu no fim do governo de Itamar Franco, após um longo processo, por R$ 154,1 milhões em valores da época. O acordo garantiu ao governo brasileiro a chamada golden share, ação preferencial que dá direito de veto a decisões estratégicas, incluindo a transferência do controle acionário, instrumento que segue em vigor.
Entre os projetos que impulsionaram a recuperação após a reestruturação está o ERJ-145, jato comercial para até 50 passageiros, além de outros modelos da mesma família. Também teve papel relevante o programa de E-jets, focado no segmento de 70 a 120 assentos. No início dos anos 2000, a Embraer estava entre os maiores exportadores do Brasil.
Expansão e parceria frustrada com a Boeing
A companhia afirma que a expansão global "acompanhou uma estratégia de diversificação". Foi criada a divisão de aviação executiva, com lançamento de jatos como a família Legacy 600/650, Phenom 100, Phenom 300, Lineage 1000 e Legacy 450/500, além do EMB-314 Super Tucano na área de defesa. O processo de internacionalização ganhou força a partir de 2010, com atividades industriais nos Estados Unidos, em Portugal e no México. Na mesma década, foram lançados os E-Jets de segunda geração, os jatos executivos Praetor 500 e Praetor 600 e o C-390.
Em 2018, foi anunciada a aprovação dos termos de uma parceria com a Boeing. Pelo acordo, seria criada uma nova empresa de aviação comercial, com participação de 80% da Boeing e 20% da Embraer. A americana pagaria US$ 4,2 bilhões (cerca de R$ 16,4 bilhões na época). Com a parceria, a Boeing ganharia vantagens no segmento de aeronaves de médio e pequeno porte para voos regionais, no qual a Embraer é líder.
Em abril de 2020, porém, a Boeing anunciou a rescisão do acordo, "após a Embraer não ter atendido as condições necessárias". A empresa brasileira classificou a rescisão como indevida e disse que a americana teria criado "falsas alegações como pretexto para tentar evitar seus compromissos". Em 2024, a Embraer anunciou que receberia US$ 150 milhões da Boeing para encerrar o processo de arbitragem.
O colapso da parceria ocorreu em meio à pandemia de covid-19 e ao encolhimento do mercado de aviões civis, com restrições e proibições de viagens. *Com informações de Alessandra Corrêa.



