O setor de data centers nos Estados Unidos vive um momento de ansiedade crescente. Executivos da indústria temem que cada vez mais projetos possam fracassar à medida que a rejeição das comunidades ganha força e os custos de construção e operação sobem. Segundo pesquisa da consultoria global AlixPartners, 68% dos profissionais seniores do setor esperam um aumento de casos de dificuldade financeira nos próximos 12 a 18 meses, número que era de 66% na edição anterior do estudo, em 2025.
O levantamento, que ouviu mais de 400 participantes, atribui parte do problema à falta de visibilidade sobre a demanda real por infraestrutura de inteligência artificial. Em um cenário em que atrasos de cronograma se tornaram a regra, e não a exceção, fatores como gargalos no fornecimento de equipamentos e disputa por trabalhadores qualificados — como eletricistas e encanadores — agravam as dificuldades das operadoras.
Pesquisa aponta piora nas expectativas do setor
A pesquisa da AlixPartners, divulgada com relatório preliminar, mostra que a combinação de aumentos nos custos de energia, fluxo de caixa reduzido, receita abaixo do planejado e queda nos preços de computação está afetando os balanços de forma simultânea. Isso não é um problema de demanda, mas de margem, na avaliação de Andrej Danis, sócio e diretor-gerente da AlixPartners.
"Dois terços do mercado esperam dificuldades dentro de 18 meses, e investidores e credores são os mais convictos disso", afirmou Danis em entrevista. "Não se trata de um único fator negativo. É uma combinação de aumento dos custos de energia, fluxo de caixa reduzido, receita abaixo do planejado e queda nos preços de computação, tudo impactando o balanço ao mesmo tempo."
Resistência comunitária e moratória em Nova York
O relatório chega em um momento de pressão intensificada sobre os data centers voltados para inteligência artificial. No início desta semana, Nova York se tornou o primeiro estado americano a impor uma moratória a novos data centers de hiperescala. As comunidades locais culpam essas instalações de alto consumo energético pelo esgotamento dos recursos naturais, pela sobrecarga da rede elétrica e pelo aumento das contas de luz para os consumidores.
Esse tipo de resistência não é isolado. Em abril, a QTS, empresa apoiada pela Blackstone Inc., vendeu um título verde de US$ 4,6 bilhões para financiar seu amplo campus em Fayetteville, na Geórgia, que enfrentou protestos e resistência da comunidade local. A rejeição comunitária se tornou mais um risco a ser gerenciado em um setor que já lida com prazos apertados e capital intensivo.
Financiamento recorde, mas sinais de fadiga
Apesar da preocupação, o volume de financiamento para projetos de inteligência artificial segue em alta. Dados compilados pela Bloomberg mostram que pelo menos US$ 334,5 bilhões em títulos e empréstimos foram emitidos até agora em 2026 para financiar infraestrutura de IA. No ano inteiro de 2025, o total ficou em US$ 185,5 bilhões. Ou seja, a captação deste ano já superou todo o período anterior.
No entanto, há sinais de que o apetite dos credores está chegando ao limite. Após a operação de dívida de US$ 25 bilhões da SpaceX, o risco de fadiga dos investidores pode reduzir os recursos disponíveis para projetos menores. No início deste mês, a Amazon.com Inc. também emitiu US$ 25 bilhões em títulos, a maior operação do tipo já realizada pela companhia, com o objetivo de financiar sua expansão em IA e data centers. Mas a demanda apenas moderada pela oferta e a recepção morna no mercado secundário indicaram desgaste entre os investidores.
Outro sinal veio mais recentemente: a operadora de data centers Prime Data Centers LLC adiou uma planejada emissão de títulos. O movimento reforça a percepção de que há limites na demanda dos investidores por exposição ao setor de inteligência artificial, especialmente para empresas de menor porte ou com perfis de risco mais elevados.
Neoclouds menores na corda bamba
Entre as operadoras de neoclouds — empresas que constroem e operam infraestrutura otimizada especificamente para inteligência artificial — as menores são as mais vulneráveis à turbulência, de acordo com Danis. Para ele, a sobrevivência no setor dependerá da capacidade de construir um negócio viável vendendo diretamente para clientes corporativos em escala.
"As neoclouds que sobreviverem serão aquelas que conseguirem construir um negócio viável vendendo diretamente para clientes corporativos em escala", afirmou Danis. A declaração resume o momento de seleção natural que se desenha no mercado, em que apenas os players com acesso a capital, contratos sólidos e execução eficiente deverão prosperar.
Com tantos fatores em jogo — custos de energia, mão de obra, financiamento e aceitação social — a indústria de data centers caminha para um período de consolidação e ajuste de expectativas. A pesquisa da AlixPartners serve de alerta para investidores, credores e operadores que ainda não incorporaram esses riscos em seus planos.



