Carregadores de elétricos: falta padrão de qualidade no Brasil
Carregadores de elétricos: falta padrão de qualidade

O usuário de carro elétrico no Brasil enfrenta um problema comum: a infraestrutura pública de recarga muitas vezes não entrega a energia prometida. Pagar por uma quantidade de energia e receber menos é uma queixa frequente, expondo a falta de regulamentação clara para os eletropostos. Uma resolução, cuja formulação está em curso e prevista para 2027, pretende estabelecer conceitos e premissas para o controle de qualidade desses equipamentos.

Falta de normas e capacitação profissional

Diferentemente dos postos de gasolina, que passam por fiscalização rigorosa, os carregadores públicos de carros elétricos se desenvolvem sem normas tão claras. Segundo Sergio Fabiano, gerente de inovação e expansão do Instituto da Qualidade Automotiva (IQA), "instaladores seguem basicamente o manual de instalação. Uma das premissas do controle de qualidade deveria ser a obrigatoriedade de capacitação profissional. Mas a gente sabe que não é. Há uma prática recomendada, mas não uma resolução".

Mesmo com esse vácuo na legislação, o segmento avançou no início do ano, com a sanção da lei que autoriza a instalação e define regras para carregadores em garagens de condomínios residenciais e comerciais de São Paulo, pelo governador Tarcísio de Freitas. Agora, o pleito é para que os carregadores instalados em shoppings, hotéis e lojas de conveniência mantenham um padrão mínimo de qualidade, desde a instalação até a condição física do aparelho, que deve entregar a energia prometida.

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Iniciativas e pressão do mercado

O IQA já trabalha com veículos elétricos há seis anos, criando comitês de trabalho dentro do Inmetro. Fabiano complementa: "Entendemos que é um processo novo. Os veículos eletrificados evoluíram agora. Há um tempo de maturação, mas as legislações já estão a caminho". A chegada de mais marcas chinesas também pressionou o mercado a elevar a aceitação desse tipo de veículo, conforme Fabiano.

A Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA) corrobora: "Na nossa avaliação, como qualquer tecnologia ou processo novo no mercado, existe espaço para evolução regulatória e operacional à medida que a infraestrutura cresce em número, potência e relevância para a mobilidade nacional". A entidade também entende que "existem oportunidades para o aprimoramento de mecanismos de acompanhamento da qualidade dos serviços oferecidos aos usuários de carros elétricos".

Como garantir a qualidade dos carregadores

O mercado de infraestrutura para recarga está em expansão, e com ele cresce a necessidade de equipamentos que atendam a requisitos rigorosos de segurança, desempenho e confiabilidade. No Brasil, esse cenário é sustentado por normas técnicas harmonizadas com padrões internacionais. De acordo com o IQA, o foco deixa de ser apenas ampliar a quantidade de pontos de recarga e passa a incluir a qualidade da infraestrutura disponível.

O controle de qualidade deveria começar na fase de desenvolvimento do produto, com ensaios em laboratório para assegurar a conformidade com as normas. A fiscalização deve avaliar desempenho, proteção contra sobrecorrente, sobretensão e superaquecimento, eficiência energética e compatibilidade eletromagnética. "O conjunto responsável pela eletrônica de potência merece atenção especial, pois é ele que realiza a conversão e o controle da energia elétrica durante o processo de recarga. Também são críticos os sistemas de proteção elétrica, os conectores e os cabos, os sensores de temperatura, os dispositivos de monitoramento e os sistemas de comunicação entre o carregador e o veículo", aponta o IQA. Qualquer falha nesses elementos compromete o desempenho e a segurança.

Visão da AEA e pilares fundamentais

Na visão da AEA, "da mesma forma que ocorre com outros sistemas energéticos e de abastecimento, é importante que os equipamentos de recarga atendam requisitos técnicos relacionados à segurança elétrica, disponibilidade operacional, desempenho, interoperabilidade e precisão da energia fornecida". Um sistema maduro de controle de qualidade deve contemplar segurança, garantia de conformidade com normas técnicas, exatidão metrológica e disponibilidade operacional.

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Experiência da Volvo e desafios

A Volvo, pioneira na proliferação de eletropostos, soma 31 mil km de rodovias conectadas. Guilherme Galhardo, head de eletrificação e diretor de digital da Volvo Car Brasil, relembra: "Estamos trabalhando há alguns anos para encontrar um modelo ideal de controle de qualidade e estamos próximos de chegar nesse ponto. Mas as dificuldades que mais tivemos foram aquelas relacionadas à infraestrutura energética. Fomos para locais remotos, saindo das capitais".

A Volvo recorre a soluções como o smart charging, da parceira WEG, que analisa a potência exata no local para entregar informação mais precisa sobre o carregamento. Galhardo levanta outro obstáculo: "O pior problema no Brasil é o desconhecimento. Mesmo sendo um dos maiores produtores de energia limpa, ainda não temos infraestrutura para acompanhar as transformações. Falta ao proprietário do carro ir atrás de conhecimento".