Ações da AstraZeneca caem 6,7% com possível fusão com Bristol Myers
AstraZeneca cai 6,7% com possível fusão com Bristol

As ações da AstraZeneca despencaram 6,7% nesta segunda-feira, registrando a maior queda do índice FTSE 100, após relatos de que a farmacêutica britânica e a Bristol Myers Squibb mantiveram conversas preliminares sobre uma possível fusão. A informação foi publicada inicialmente pelo Financial Times e confirmada à Reuters por uma fonte com conhecimento do assunto, que falou sob condição de anonimato.

A repercussão negativa no mercado evidencia a reação imediata dos investidores, que avaliam se uma combinação entre as duas companhias criaria de fato uma das maiores farmacêuticas do mundo, como sugerem as estimativas de capitalização. Na sexta-feira, a soma dos valores de mercado atingia quase US$ 400 bilhões, sendo US$ 264,11 bilhões da AstraZeneca e US$ 133,41 bilhões da Bristol Myers Squibb.

A desvalorização desta segunda-feira coloca a AstraZeneca na contramão do desempenho recente das ações, que acumulavam ganhos expressivos apoiados em um pipeline robusto e em resultados consistentes. A reação do mercado sugere que os investidores preferem o crescimento orgânico da companhia a uma aposta arriscada em uma megafusão.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Ceticismo sobre lógica estratégica e financeira

"Uma fusão com a Bristol não faz sentido estratégico nem financeiro", afirmou Markus Manns, gestor de portfólio da Union Investment, acionista da AstraZeneca. Em declarações à Reuters, Manns argumentou que "muitas megafusões anteriores destruíram valor" e que "não há necessidade aparente de a Astra fazer isso".

O gestor também ressaltou a liderança de Pascal Soriot, presidente-executivo da AstraZeneca, que em 14 anos à frente da companhia sempre priorizou o investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) em vez de cortes de custos. "Uma fusão perturbaria profundamente uma empresa bem administrada e com um pipeline completo", alertou.

Analistas da Jefferies veem 'engenharia financeira' desnecessária

Em nota a clientes, analistas da Jefferies disseram estar perplexos com as notícias sobre as negociações, destacando que a AstraZeneca possui um forte "perfil de crescimento e inovação". Para eles, "se há uma empresa que não precisa de engenharia financeira, essa empresa é a AstraZeneca".

Os comentários refletem uma preocupação recorrente no setor farmacêutico: a de que grandes fusões podem não gerar sinergias suficientes para compensar os riscos de integração, o aumento da dívida e as dificuldades regulatórias. Embora as conversas tenham sido descritas como preliminares, a simples possibilidade de um negócio desse porte já era suficiente para abalar a confiança dos investidores na manhã desta segunda-feira.

Listagem em Nova York e interesse pelo mercado americano

A AstraZeneca completou neste ano uma listagem direta na Bolsa de Valores de Nova York (NYSE), um movimento que reforçou sua aposta no mercado dos Estados Unidos, o maior do mundo em vendas de medicamentos. A medida foi interpretada como uma tentativa de aproveitar as avaliações mais elevadas das empresas americanas e ampliar a base de investidores.

Uma eventual fusão com a Bristol Myers Squibb, no entanto, teria implicações além das financeiras. Na prática, uma empresa britânica adquiriria uma das principais gigantes farmacêuticas americanas, o que pode despertar resistência política e regulatória. Qualquer acordo desse tipo exigiria revisão antitruste nos Estados Unidos e no Reino Unido, além de possivelmente na União Europeia, em um momento de maior escrutínio global sobre concentração de mercado.

Impacto potencial e próximos passos

O movimento das ações indica que os investidores não estão convencidos de que a soma das partes seria superior ao valor das empresas independentes. Para Manns, da Union Investment, não há necessidade aparente de a AstraZeneca realizar uma aquisição transformadora, sobretudo considerando o forte desempenho recente da companhia e a solidez de seu pipeline de medicamentos.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

A fonte ouvida pela Reuters não indicou se as conversas estão avançadas ou se há prazo para uma decisão, e tanto a AstraZeneca quanto a Bristol Myers Squibb não comentaram oficialmente o assunto. Caso as negociações prossigam, os termos do negócio — valores por ação, governança da nova empresa e localização da sede — serão pontos críticos. O mercado agora aguarda os próximos desdobramentos, com a possibilidade de que as empresas sejam pressionadas a se manifestar publicamente.