Na contramão das previsões mais pessimistas de que a inteligência artificial vai substituir milhões de cargos, um estudo feito pelo Banco Inter sugere que a tecnologia não deve provocar uma onda de desemprego em massa no Brasil. No entanto, a automação pode reduzir a demanda por profissionais em início de carreira e desestimular os jovens a ingressar no ensino superior, afirma o levantamento, obtido com exclusividade pelo Estadão. No longo prazo, a tendência é de que o mercado enfrente escassez de profissionais seniores.
Pesquisa simulou cenários com base na PNAD
A pesquisa simulou diversos cenários para medir os impactos da IA na demanda e na oferta de trabalho qualificado com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). Os trabalhadores foram divididos em três grupos: baixa qualificação (sem ensino superior nem experiência), média qualificação (com graduação) e alta qualificação (com anos de atuação). Na situação considerada mais provável, os profissionais altamente qualificados serão ainda mais valorizados pelas empresas. O problema é o aumento da distância com os jovens que estão saindo da faculdade.
Recém-formados na berlinda
Na simulação que reúne os cinco cenários, o prêmio salarial dos trabalhadores com ensino superior e mais experiência aumenta 4,1 pontos percentuais, enquanto o dos recém-formados sobe 3,4 pontos percentuais. André Valério, economista sênior do Banco Inter e um dos líderes do estudo, afirma que isso indica que o principal impacto da IA será redistribuir os ganhos dentro do mercado de trabalho qualificado. “Não vemos uma grande queda na demanda por trabalhadores qualificados. O que muda é a rentabilidade desses trabalhadores. Pagam mais para quem tem experiência e relativamente menos para quem está entrando no mercado”, diz Valério.
Cinco cenários analisados
A pesquisa avaliou cinco cenários: automação das tarefas de entrada, criação de novas empresas, aumento de produtividade, aceleração da obsolescência das habilidades e acúmulo de experiência. Em todos, o maior impacto recai nos profissionais em início de carreira, mais vulneráveis à automação de tarefas repetitivas e operacionais. O perigo é ter menos profissionais com média qualificação disponíveis no mercado, o que pode levar a um “apagão” de profissionais experientes no futuro. “A ideia é que a IA deixe o trabalhador estabelecido mais produtivo e reduza a necessidade daquele trabalho de entrada”, diz Valério.
Mentoria como solução
Para Jerry Soares, CEO da MPJ Solutions, a saída é mudar a forma como os jovens são desenvolvidos. Ele argumenta que as empresas vão ter de investir mais em programas de mentoria e aprendizagem prática para acelerar a formação de novos talentos enquanto a IA foca em atividades operacionais. “A IA automatiza algumas tarefas, mas o conhecimento sobre como tomar decisões e entender o negócio continua sendo construído na convivência com quem já percorreu esse caminho”, defende.
Leandro Oliveira, diretor EMEA e Brasil da Humand, avalia que empresas maduras já investem em trilhas de aprendizagem e mentorias apoiadas por IA. “O desafio é preparar pessoas para trabalhar com IA, e não competir contra ela”, conclui.
Impacto no ensino superior
A redução das oportunidades para recém-formados torna “menos vantajoso” investir em uma graduação, conclui um dos cenários. A compressão dos salários iniciais implica menor retorno econômico do diploma, que pode ser considerado dispensável. “Quando comprimimos os salários dos recém-formados, o retorno esperado da educação superior fica achatado e isso pode desestimular muita gente a buscar uma graduação”, diz Valério.
Uma das alternativas é criar políticas públicas para evitar a fuga no ensino superior. “Se esse cenário se materializar, vamos precisar de políticas públicas para manter a atratividade do ensino superior e o desenvolvimento dos jovens”, estima Valério. Contudo, em cenários de criação de novas empresas e aumento de produtividade, há possibilidade de demanda por recém-formados e retorno da educação superior.
IA não é a única causa
Alexandre Tibechrani, CEO da LHH para América Latina, é mais cauteloso. “O que mudou foi o próprio ambiente em que as empresas operam: mais competitivo, mais incerto, mais rápido. A IA é uma peça dessa mudança, não a causa dela.” Para ele, o mercado vive um momento parecido com a mecanização da agricultura. “As empresas vão se adaptar. Os jovens também. O que torna essa transição mais difícil é o ritmo.”
Desemprego em massa descartado
Apesar das hipóteses desfavoráveis, a mudança deve ser gradativa, considerando custos de implementação e ritmo de adoção. “Historicamente, as profissões morrem, mas os empregos, não. O que muda é a composição do mercado de trabalho”, reforça Valério. Para Tibechrani, a escassez de profissionais experientes é um risco real porque as empresas não desenharam onde os jovens aprenderão errando em pequena escala — papel do estágio.
Jerry Soares avalia que, no setor de tecnologia, a IA acelera uma transformação que já ocorria: muda as competências exigidas. Funções de coleta e organização de dados perdem espaço, enquanto cresce a demanda por profissionais que definem estratégias com base nos dados produzidos pela IA.



