O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, faturou cerca de US$ 1,2 bilhão com os negócios de criptomoedas de sua família no primeiro ano de seu retorno à Casa Branca. Os números, calculados pela AFP, constam de uma declaração financeira de 927 páginas entregue ao Escritório de Ética Governamental dos Estados Unidos e divulgada nesta terça-feira (30).
World Liberty Financial e token $TRUMP
A World Liberty Financial (WLF), cofundada em setembro de 2024 pelos filhos de Trump e pelo filho de Steve Witkoff, enviado especial do presidente para o Oriente Médio, rendeu a Trump quase US$ 550 milhões em 2025, boa parte com a venda de novos produtos cripto, entre eles os chamados tokens de governança, que dão direito a voto em decisões da empresa mas não representam participação acionária.
Um negócio distinto ligado à moeda “meme” $TRUMP, criptoativo que estampa o nome e a imagem do presidente, gerou outros US$ 635 milhões em vendas de tokens. Segundo a Forbes, os negócios com criptomoedas foram o principal fator por trás do salto no patrimônio pessoal de Trump, que quase triplicou, passando de US$ 2,3 bilhões em 2024 para US$ 6,5 bilhões em 2026.
Perdas para investidores comuns
Para muitos compradores, o resultado foi bem diferente. O token $TRUMP, que chegou a ser negociado a mais de US$ 74 dias após o lançamento, caiu para menos de US$ 2. Os tokens da WLF, por sua vez, perderam cerca de 80% do valor desde que começaram a ser negociados em setembro do ano passado. Como a declaração lista apenas receita e não lucro, não é possível determinar o ganho líquido de Trump. Ainda assim, o documento mostra que o presidente e sua família receberam taxas e royalties antecipadamente, enquanto parte dos investidores viu o valor de suas posições cair de forma acentuada.
Entre os investidores está o bilionário cripto Justin Sun, nascido na China, que aplicou US$ 75 milhões nos tokens de governança e outros US$ 200 milhões nas moedas meme $TRUMP e $MELANIA. Um processo por fraude movido pelos Estados Unidos contra Sun foi suspenso e depois encerrado com um acordo de US$ 10 milhões. Sun nega qualquer relação entre os investimentos e o desfecho do caso.
Casa Branca rejeita conflito de interesses
Após a divulgação da declaração, a Casa Branca negou que haja qualquer problema ético envolvido. Em comunicado à agência AFP, a porta-voz adjunta principal Anna Kelly afirmou que “nem o presidente, nem sua família jamais se envolveram, ou se envolverão, em conflitos de interesse”. Segundo Kelly, Trump “orgulhosamente transformou os Estados Unidos na capital mundial das criptomoedas”. Ela também classificou as críticas à gestão financeira do presidente como parte de uma “narrativa cansada e falsa” atribuída a democratas e à imprensa tradicional.
Questionado por jornalistas sobre possíveis conflitos de interesse, o próprio Trump afirmou nesta quarta-feira que não se envolve em seus negócios financeiros pessoais e que possui “fundos que administram bem” seu dinheiro. Ele disse ainda não conversar com instituições financeiras sobre seus investimentos e, ao ser questionado sobre lucrar com o cargo, respondeu que o mercado de ações está em alta e que, portanto, “todos estão lucrando”.
Além das criptomoedas
A declaração também detalha uma expansão internacional dos negócios da família Trump, com novos acordos de hotéis, resorts e empreendimentos imobiliários em países que, na mesma época, negociavam acordos comerciais e de segurança com Washington. Um empreendimento nos Emirados Árabes Unidos rendeu cerca de US$ 10,4 milhões no ano passado, um projeto na Arábia Saudita gerou aproximadamente US$ 9 milhões, e iniciativas no Catar, na Romênia e no Vietnã somaram US$ 5 milhões cada uma.
Os negócios tradicionais da família também cresceram. O Mar-a-Lago, clube particular de Trump na Flórida, faturou cerca de US$ 77 milhões, alta de aproximadamente 50% em relação ao ano anterior, num período em que chefes de Estado e executivos frequentaram a propriedade.
O documento ainda mostra a diversidade de formas pelas quais a marca Trump é monetizada atualmente. O presidente arrecadou milhões com produtos licenciados, de tênis a relógios, incluindo US$ 4,7 milhões apenas com os relógios da marca Trump, além de mais de US$ 200 mil provenientes da Bíblia “God Bless the USA”, edição de marca promovida em parceria com o cantor country Lee Greenwood.
Uma lei de 1978 exige que o presidente e o vice-presidente dos Estados Unidos declarem sua renda e seus bens. A declaração também traz os rendimentos da primeira-dama, Melania Trump, incluindo mais de US$ 10 milhões relacionados a um documentário biográfico da Amazon e mais de US$ 500 mil provenientes de suas memórias. Para efeito de comparação, o vice-presidente JD Vance declarou entre US$ 1 milhão e US$ 5 milhões em royalties de seu livro de 2016, “Hillbilly Elegy”.
(Com AFP e The Guardian)



