Com os títulos públicos atrelados à inflação entregando retornos próximos de IPCA + 8% ao ano, cresce entre investidores a dúvida sobre a vantagem de manter posições em renda variável. Para a equipe de estratégia da XP, entretanto, a resposta é sim: ainda vale a pena ter ações brasileiras. Em relatório divulgado com visão para agosto, Fernando Ferreira e o time da corretora avaliam que o atual patamar de juros reais é desafiador, mas já está em grande parte precificado nos preços dos ativos.
O argumento central é que o mercado acionário passou por uma compressão relevante nos últimos meses, o que tornou a relação risco-retorno mais interessante do que sugerem as taxas observadas na renda fixa. A discussão ganhou força porque as taxas reais de longo prazo no Brasil se aproximaram de 8%, enquanto nos Estados Unidos giram em torno de 3%. Na teoria, quanto maior o retorno da renda fixa, menor tende a ser a atratividade da renda variável. Mas, na prática, a XP enxerga espaço para ganhos adicionais.
Prêmio de risco do Ibovespa volta a melhorar
Segundo a corretora, o chamado prêmio de risco da Bolsa, que mede o retorno esperado das ações acima dos juros reais, melhorou recentemente. Isso ocorreu porque as ações caíram em ritmo mais intenso do que a alta das taxas das NTN-Bs, ampliando o potencial de retorno relativo do mercado acionário. Com isso, o prêmio de risco do Ibovespa está em cerca de 4%, depois de uma recuperação impulsionada pela correção dos papéis.
"O ambiente de juros mais altos por mais tempo parece estar, em boa medida, precificado", afirma a XP no relatório. Para a casa, a precificação atual já reflete, em grande parte, o cenário de aperto monetário prolongado e de taxas reais elevadas, reduzindo o risco de novas surpresas negativas relevantes.
Cíclicas domésticas concentram as melhores oportunidades
A análise da XP mostra que a atratividade não é uniforme entre os setores. As ações ligadas à economia doméstica, as chamadas cíclicas domésticas, são as que oferecem a melhor combinação entre valuation e juros reais. Esses papéis foram os mais penalizados pelo avanço das taxas de longo prazo e hoje negociam com desconto relevante em relação às suas médias históricas.
Em termos de múltiplo preço/lucro, o Ibovespa opera em cerca de 8,4 vezes o lucro projetado, próximo da média dos últimos cinco anos e abaixo da média histórica de longo prazo, de aproximadamente 10,5 vezes. Já as cíclicas domésticas negociam cerca de um desvio-padrão abaixo de suas médias históricas de valuation, o que indica uma janela de entrada para investidores com visão de médio e longo prazo. Por outro lado, setores ligados a commodities aparecem relativamente mais caros, após liderarem o desempenho do índice neste ano, com destaque para as empresas de petróleo e gás.
Fluxo estrangeiro e baixa alocação local sustentam otimismo
Outro argumento usado pela XP para justificar uma visão construtiva é a dinâmica de fluxo. Os estrategistas lembram que os investidores locais seguem historicamente pouco alocados em renda variável, com participação próxima dos menores níveis dos últimos anos, enquanto a renda fixa continua dominante nas carteiras. A Bolsa, porém, tende a ser a principal beneficiária quando o investidor estrangeiro decide ampliar sua exposição ao Brasil.
Isso ocorre porque os estrangeiros têm participação relativamente pequena no mercado de NTN-Bs, mas respondem por aproximadamente 60% do giro da B3. Esse movimento já começou a aparecer em julho, quando o fluxo externo voltou para a Bolsa após dois meses de saídas. A entrada líquida foi de cerca de R$ 3,3 bilhões, o que ajudou o Ibovespa a subir 3,5% no mês e o ETF EWZ a avançar mais de 5% em dólares.
Sentimento extremo e cenários para o fim de 2026
A XP reconhece que a volatilidade deve continuar elevada, influenciada pelas eleições de 2026, pelas discussões fiscais e pelo patamar dos juros. Mesmo assim, avalia que o risco de queda do Ibovespa é relativamente limitado, tanto pelos preços atuais quanto pelos indicadores de sentimento. O índice proprietário da corretora permanece próximo da região de "extremo pessimismo", um sinal que historicamente costuma anteceder movimentos de recuperação do mercado.
Diante desse cenário, a XP mantém a projeção de 200 mil pontos para o Ibovespa no fim de 2026, o que representa o caso-base da casa. No cenário otimista, que considera uma queda dos juros reais para 5,5% e uma expansão dos múltiplos de negociação, o índice poderia alcançar 260 mil pontos. Já no cenário pessimista, com juros reais chegando a 8,5% e deterioração dos lucros corporativos, o valor justo estimado seria de cerca de 159 mil pontos.



