Pix movimentou R$ 35,4 tri em 2025 e valeria até R$ 1,8 tri se fosse empresa
Pix: R$ 35,4 tri movimentados e valuation de R$ 1,8 tri

O Pix se tornou um fenômeno raro no mundo da tecnologia financeira, deixando de ser apenas uma ferramenta e se consolidando como um gigante da infraestrutura de pagamentos. Em pouco mais de cinco anos, passou de novidade a mania nacional, sendo utilizado desde o pagamento do cafezinho até compras de grandes empresas. Somente no ano passado, o sistema movimentou R$ 35,36 trilhões, um aumento de 33,6% em relação ao ano anterior e um recorde. Esse volume supera muitos sistemas de pagamento globais e até mesmo o PIB brasileiro, de R$ 12,7 trilhões. O Pix se tornou um símbolo da capacidade brasileira de criar soluções financeiras em escala e chamou a atenção até do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que criticou o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, apontando suposta concorrência desleal com empresas americanas do setor.

Quanto valeria o Pix se fosse uma empresa?

Os dados levantam uma questão curiosa: e se o Pix não fosse apenas uma infraestrutura pública criada pelo Banco Central, mas sim uma companhia privada listada em bolsa? Em um exercício hipotético, Rafael Nakamoto, executivo com mais de duas décadas de atuação em private equity e participação em negócios como Neurotech, Boa Vista Serviços e Conductor, concluiu que uma hipotética "Pix S.A." poderia alcançar valor de mercado entre R$ 601 bilhões e R$ 1,8 trilhão.

“A ideia surgiu diante de tantos números poderosos do próprio sistema do Pix. Como investidor, participei da construção de empresas que alcançaram avaliações bilionárias e, quando observamos a relevância do Pix, naturalmente surge a pergunta: quem é o dono desse ativo e quanto ele valeria se operasse como uma empresa?”, afirma Nakamoto.

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Uma gigante dos pagamentos

Na estimativa mais otimista, a Pix S.A. estaria entre as companhias mais valiosas do mundo. Além de movimentar R$ 35,4 trilhões em 2025, o sistema registrou cerca de 80 bilhões de transações, realizadas por aproximadamente 180 milhões de usuários. A infraestrutura também se destaca pela eficiência: as operações são liquidadas em menos de um segundo, desempenho superior ao de muitos sistemas bancários tradicionais e até de algumas redes baseadas em blockchain. Os custos operacionais permanecem surpreendentemente baixos: o sistema exigiu investimento inicial estimado em apenas R$ 15 milhões e opera com despesas anuais próximas de R$ 50 milhões, valores considerados baixos diante do volume processado.

Como se chegou ao valor de R$ 1,8 trilhão?

Para calcular o valor de mercado da hipotética Pix S.A., Nakamoto utilizou uma lógica semelhante à aplicada em empresas globais de pagamentos. O modelo parte da aplicação de um "take rate", taxa cobrada sobre o volume financeiro movimentado. Embora o Pix seja gratuito para pessoas físicas e tenha sido concebido como infraestrutura pública, o exercício considera uma cobrança hipotética entre 0,1% e 0,3% sobre o volume transacionado. Nessa simulação, a receita anual ficaria entre R$ 35,4 bilhões e R$ 106 bilhões. Ao aplicar múltiplos utilizados pelo mercado para empresas de tecnologia financeira e processadoras de pagamentos, o valuation alcançaria uma faixa entre R$ 601 bilhões e R$ 1,8 trilhão.

Comparação com outras empresas

Na prática, o valor colocaria a Pix S.A. acima de muitas das maiores companhias brasileiras. “Não existe hoje no Brasil outro ativo com potencial para atingir R$ 1 trilhão em valor de mercado como o Pix. Se fosse uma companhia aberta, estaria entre as maiores empresas do planeta”, afirma Nakamoto. A título de curiosidade, Nakamoto compara com empresas badaladas na bolsa: a mineradora Vale tem valor total de mercado em torno de R$ 364 bilhões; a Petrobras, cerca de R$ 573 bilhões; e o Itaú Unibanco, R$ 440 bilhões. Na área de tecnologia, o valor de mercado do Mercado Livre hoje gira em torno de US$ 84 bilhões a US$ 85 bilhões (R$ 423 bilhões a R$ 428 bilhões).

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O que torna o Pix tão valioso?

Segundo o executivo, três fatores sustentariam essa avaliação. O primeiro é a escala: a base de usuários já alcança praticamente toda a população economicamente ativa do país, criando uma barreira de entrada extremamente difícil de ser replicada por concorrentes. O segundo é a possibilidade de monetização de serviços complementares, como seguros, crédito, investimentos e soluções empresariais, que poderiam ser oferecidos sobre a mesma infraestrutura. O terceiro elemento é a eficiência tecnológica: “O Pix substituiu estruturas legadas caras e complexas. Ele eliminou custos associados a compensação bancária, documentos físicos e diversas etapas intermediárias do sistema financeiro”, afirma.

Um sistema que mudou o mercado

Independentemente de qualquer exercício de valuation, todos concordam que o Pix já produziu mudanças profundas no setor financeiro. A ferramenta reduziu drasticamente a utilização de TEDs e DOCs, pressionou receitas tradicionais dos bancos e passou a disputar espaço diretamente com cartões, boletos e outros meios de pagamento. Para o varejo, o sistema trouxe liquidação imediata e custos significativamente menores. “Os concorrentes não gostam do Pix justamente porque ele opera com custo muito baixo. Boa parte da infraestrutura é compartilhada pelo sistema financeiro, o que torna o modelo extremamente eficiente”, afirma Nakamoto.

O desafio é evoluir

Apesar do sucesso, o sistema ainda enfrenta desafios. Fraudes continuam sendo uma preocupação relevante, embora o Banco Central e as instituições financeiras tenham ampliado mecanismos de proteção nos últimos anos. Segundo Nakamoto, trata-se de um caminho semelhante ao percorrido anteriormente pelas bandeiras de cartão. “É um problema real, mas solucionável. O mercado de cartões passou por esse processo e desenvolveu mecanismos robustos de segurança. O Pix tende a seguir a mesma trajetória.” Ao mesmo tempo, novas tecnologias começam a surgir no horizonte, como stablecoins, moedas digitais privadas e sistemas de pagamento instantâneo inspirados no modelo brasileiro, que começam a ser discutidos em diversos países. “O que preocupa parte do mercado financeiro global é justamente a possibilidade de outros países replicarem algo semelhante ao Pix. Se essa lógica ganhar escala internacional, ela pode alterar profundamente a indústria de pagamentos mundial.”

No fim das contas, a hipótese de transformar o Pix em uma empresa talvez nunca saia do papel, até porque o Pix não nasceu para gerar lucro. Seu objetivo era aumentar a eficiência do sistema financeiro, reduzir custos e ampliar a inclusão bancária. Mas ao atingir essas metas, acabou produzindo algo ainda mais relevante: quanto mais pessoas utilizam o sistema, mais útil ele se torna para todos os participantes. Assim, uma infraestrutura criada para ser pública e gratuita tornou-se um dos ativos econômicos mais valiosos já construídos no Brasil. “E é claro que, quando se vê um sucesso desse tamanho, percebe-se que estamos deixando milhões de reais na mesa”, avalia Nakamoto.

O Pix em números

  • R$ 35,4 trilhões movimentados
  • 80 bilhões de transações
  • 180 milhões de usuários
  • Liquidação em menos de 1 segundo
  • Custo operacional estimado: R$ 50 milhões por ano
  • Valuation hipotético: entre R$ 601 bilhões e R$ 1,8 trilhão, valor potencial superior ao de diversas gigantes brasileiras
  • Principal meio de pagamento do país