As taxas dos Depósitos Interfinanceiros (DIs) fecharam a quarta-feira próximas da estabilidade nos vencimentos curtos e com leves altas nos contratos longos, com o mercado brasileiro reagindo ao noticiário político desfavorável à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao Planalto e à expectativa de novas tarifas dos EUA contra o Brasil. A curva a termo brasileira se sustentou na contramão do exterior, onde os rendimentos dos Treasuries voltaram a desabar após a divulgação de novos números de inflação nos EUA.
Movimento das taxas e pesquisa eleitoral
No fim da tarde, a taxa do DI para janeiro de 2028 estava em 13,865%, com queda de 1 ponto-base ante o ajuste de 13,873% da sessão anterior. Na ponta longa da curva, o DI para janeiro de 2035 marcou 14,34%, com elevação de 5 pontos-base ante 14,287%. No início do dia, uma nova pesquisa Genial/Quaest sobre a eleição presidencial mostrou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com 45% das intenções de voto no segundo turno, contra 37% de Flávio. O resultado, cuja margem de erro é de dois pontos percentuais, amplia para 8 pontos-percentuais a vantagem de Lula sobre Flávio, de 6 pontos-percentuais do levantamento anterior.
Fatores políticos e fiscais
Durante a tarde, um novo fator negativo para a candidatura de Flávio veio à tona na imprensa: uma foto do senador com Luiz Philippi Mourão, conhecido como “Sicário”. Mourão, que morreu em março após ser preso pela Polícia Federal, teria ligações com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e envolvido em suposto financiamento do filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Em vídeo, Flávio argumentou que, como figura pública, recebe diariamente dezenas de pedidos de fotos pelas ruas, procurando desvincular sua imagem do Sicário.
Já o ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou que a medida provisória que trata da renegociação de dívidas rurais será editada nesta quarta-feira, com a estimativa de que cerca de R$ 100 bilhões em dívidas sejam renegociadas. O setor rural é visto como uma base de apoio à candidatura de Flávio, e a renegociação de dívidas é considerada uma tentativa do governo de se aproximar do setor. Além disso, o Brasil se prepara para a imposição de uma nova tarifa de 25% pelos EUA, que pode atingir mais de 4 mil produtos brasileiros, após meses de negociações intensas, mas em grande parte infrutíferas, disseram à Reuters quatro fontes que acompanham as discussões.
O governo Lula tem procurado associar eventual tarifa sobre produtos brasileiros aos interesses políticos da família Bolsonaro, que mantém contato com aliados do presidente norte-americano Donald Trump. Procurando se isentar de responsabilidade, Flávio fez um discurso este mês em Washington contra a tarifa de 25%.
Descolamento da curva e expectativas de juros
“A curva no Brasil descolou bastante hoje do exterior, onde os rendimentos dos Treasuries caíram, claramente por conta da dinâmica interna de eleição”, pontuou a analista Laís Costa, da Empiricus Research. “A demanda pelo tema ‘eleição’ mudou completamente no mercado, e hoje é outro dia que confirma este viés.” Além do desconforto com o cenário político, profissionais ouvidos pela Reuters citaram medidas políticas com possíveis impactos fiscais como um fator de sustentação para a curva.
Na noite de terça-feira, o Senado aprovou Proposta de Emenda à Constituição que estabelece aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e de combate às endemias. A PEC, que aguarda promulgação, teria impacto no Orçamento de R$ 3 bilhões por ano, calculou o governo em junho.
Perspectivas para a Selic
A despeito do movimento da curva brasileira no dia, investidores seguiram posicionados para mais um corte em agosto de 25 pontos-base da Selic, hoje em 14,25% ao ano. Durante a tarde, a curva precificava quase 100% de chance de um corte nessa magnitude. Além disso, dados econômicos mais recentes — como a inflação pelo IPCA abaixo do esperado em junho — têm dado força a apostas de que o Banco Central poderá promover outro corte de 25 pontos-base também em setembro. Na tarde desta quarta-feira, a curva precificava cerca de 30% de chance de isso acontecer, contra 70% de probabilidade de manutenção.
Pela manhã, mais um dado corroborou as apostas de mais cortes da Selic. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou que o volume de serviços teve queda de 0,4% em maio ante abril, após alta de 1,1% no mês anterior. Economistas ouvidos pela Reuters projetavam alta de 0,1%.
Mercado externo e Treasuries
No exterior, os preços ao produtor norte-americano caíram de forma inesperada em junho, em mais um indício de que a inflação dos EUA vinha recuando antes da recente escalada do conflito no Oriente Médio. Em reação, os rendimentos dos Treasuries despencaram. Às 16h48, o rendimento do Treasury de dois anos — que reflete apostas para os rumos das taxas de juros de curto prazo — tinha queda de 5 pontos-base, a 4,143%. Já o retorno do título de dez anos — referência global para decisões de investimento — caía 3 pontos-base, a 4,551%.



