UE interrompe compra de carne, frango e mel do Brasil em setembro
UE bloqueia carne, frango e mel do Brasil em setembro

A União Europeia (UE) confirmou que vai suspender, a partir de 3 de setembro, as compras de carne bovina, carne de frango e mel produzidos no Brasil. O bloqueio foi anunciado em maio, depois que o bloco excluiu o país da lista de nações que seguem suas regras para o uso de antimicrobianos na pecuária. Segundo a Comissão Europeia, não foram encontradas irregularidades na carne brasileira, mas o controle sobre essas substâncias é considerado insuficiente.

Retomada das exportações pode levar dois anos

O pecuarista André Bartocci, presidente da Câmara Setorial da Carne Bovina, órgão consultivo do Ministério da Agricultura, afirmou ao g1 que a UE comunicou que não voltará a comprar carne bovina do Brasil antes de dois anos. A informação teria sido passada em reunião com integrantes do ministério há duas semanas. O prazo está ligado ao ciclo de vida do boi: se um animal começar hoje a seguir novos protocolos sobre antimicrobianos, levará cerca de 24 meses para ficar pronto dentro dos padrões exigidos.

Procurado, o escritório de Saúde e Bem-Estar Animal da Comissão Europeia não confirmou o prazo de dois anos, mas disse que a retomada das exportações "dependerá dos ciclos de produção dos animais". O Ministério da Agricultura não respondeu aos pedidos de entrevista.

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Frango tem prazo menor, mas depende de análise da UE

No caso do frango, o ciclo é mais curto — cerca de 45 dias do nascimento ao abate. Em coletiva de imprensa na terça-feira (28), o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, disse que uma missão da União Europeia virá ao Brasil no final de agosto para verificar os novos protocolos criados pelo governo brasileiro. Segundo ele, a principal mudança é que o governo vai ampliar o número de fiscalizações em fábricas de ração, granjas e frigoríficos, dentro do Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC).

"Vamos continuar fazendo o que sempre fizemos, não usamos promotores de crescimento para a União Europeia nem antibióticos de uso humano. Empresas do Brasil não estão fazendo nada diferente do que sempre fizeram. Sempre segregamos", destacou Santin.

Impacto pode superar US$ 500 milhões

O bloqueio pode custar mais de US$ 500 milhões ao Brasil, considerando as vendas dos três setores ao bloco. A carne bovina é o principal produto de origem animal exportado para a UE, seguida por frango e mel.

Bartocci explicou que parte da carne exportada para a Europa é vendida pela Cota Hilton, modalidade que dá tarifa reduzida e já proíbe o uso de antimicrobianos durante toda a vida do animal. "Quem faz cota Hilton não usa antimicrobiano há muito tempo. Mas a maioria da carne que vai para a Europa não é Hilton, é lista Trace, uma categoria onde o produtor só precisa comprovar que não usou antimicrobiano nos últimos 100 dias. Agora vai mudar, todo o ciclo vai precisar de comprovação", afirmou.

Governo brasileiro já tentou reverter a decisão

Antes do anúncio da UE, o Ministério da Agricultura publicou uma portaria proibindo o uso de alguns antimicrobianos, como avoparcina, virginiamicina e bacitracina. Em maio, o governo propôs um período de transição ao bloco, mas a oferta foi recusada. Em junho, criou um novo protocolo de controle do uso dessas substâncias na pecuária. Mesmo assim, a UE manteve o bloqueio.

Representantes do agronegócio veem a medida como protecionista, já que foi anunciada dias após a entrada em vigor do acordo de livre comércio entre UE e Mercosul. O tratado enfrentou forte resistência de agricultores europeus, que temem a concorrência de produtos sul-americanos mais baratos, especialmente do Brasil, principal exportador agrícola do bloco para a Europa. Argentina, Paraguai e Uruguai seguem autorizados a vender para os europeus.

Setor de frango pode redirecionar produção

Santin disse ter esperança de retomar as exportações de frango ainda em setembro, após a visita da missão europeia no final de agosto. No entanto, os relatórios produzidos na visita precisarão ser analisados pelo SCoPAFF (Comitê Permanente de Plantas, Animais, Alimentos e Rações), que só tem reunião marcada para novembro.

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Caso o bloqueio não seja revertido ou se prolongue, a ABPA afirma que poderá redistribuir a produção de frango destinada à Europa para o mercado interno e para os cerca de 150 países que compram carne brasileira. "Já ficamos sem vender para a União Europeia quatro meses no ano passado por causa da gripe aviária. O difícil seria se a gente ficasse sem o Oriente Médio", destacou.

Mel: veto atrapalha crescimento das vendas

O mel é o menor dos três setores, mas vinha crescendo. Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (Abemel), Renato Azevedo, o aumento das vendas para a Europa foi impulsionado pelo tarifaço de Donald Trump, que encareceu as exportações para os Estados Unidos. No primeiro semestre deste ano, as vendas de mel ao bloco dobraram, chegando a US$ 6,3 milhões.

"O veto da UE acabou sendo um 'balde de água fria' nos esforços dos exportadores, que já estavam colhendo frutos de um trabalho de ampliação de mercado", afirmou Azevedo. Ele ponderou que o mel brasileiro exportado é, em grande maioria, orgânico, com certificação que garante produto livre de resíduos e antibióticos. O risco, diz ele, é a contaminação cruzada: "Se houver uma colmeia próxima a uma área de criação de gado, existe a possibilidade de resíduos chegarem ao mel. Por isso, o controle é importante para evitar esse tipo de contaminação."