O aumento do risco de inadimplência no crédito rural está elevando o spread bancário para a safra 2026/27, resultando em taxas de juros mais altas para os produtores rurais. De acordo com relatório do Banco Central divulgado nesta sexta-feira, o spread médio das operações de crédito rural com recursos controlados subiu 0,8 ponto percentual em junho de 2026, atingindo 7,2% ao ano, ante 6,4% registrados no mesmo mês de 2025.
Causas do aumento do spread
O relatório aponta que a elevação do spread reflete o aumento da percepção de risco pelos bancos, impulsionado por fatores como a volatilidade dos preços das commodities, os efeitos de eventos climáticos adversos sobre as safras e o endividamento elevado de alguns produtores. Segundo o chefe do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro do Banco Central, Marcos de Souza, "o cenário macroeconômico incerto e as pressões sobre o setor agropecuário contribuíram para que as instituições financeiras revisassem para cima suas taxas de juros".
Impacto sobre os produtores rurais
Com o spread mais alto, os produtores rurais enfrentam custos financeiros maiores para financiar suas atividades. A taxa de juros média para o crédito rural com recursos controlados passou de 8,5% para 9,3% ao ano entre junho de 2025 e junho de 2026. O aumento é ainda mais significativo para operações de custeio, que registraram spread de 8,1% ao ano, contra 7,0% no período anterior. A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (FAESP) estima que o encarecimento do crédito pode reduzir em até 5% a área plantada na próxima safra de grãos, impactando a produção de soja, milho e algodão.
Medidas do governo e perspectivas
O governo federal anunciou, em julho de 2026, a liberação de R$ 2 bilhões adicionais para o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e para o Programa de Modernização da Agricultura (Moderagro), com o objetivo de mitigar os efeitos do aumento dos juros. No entanto, especialistas avaliam que essas medidas podem não ser suficientes para compensar a elevação do spread. O presidente da Associação Brasileira de Agronegócio (ABAG), João Martins, afirmou: "O aumento do spread é um sinal de alerta para o setor. Precisamos de políticas de crédito mais estáveis e de mecanismos de seguro rural mais robustos para reduzir a percepção de risco".
Dados regionais e setoriais
O relatório do Banco Central também mostra diferenças regionais no spread. No Centro-Oeste, principal região produtora de grãos, o spread médio atingiu 7,8% ao ano, enquanto no Sul ficou em 6,9%. As operações de investimento, como aquisição de máquinas e equipamentos, apresentaram spread de 6,5% ao ano, abaixo da média geral. O número de contratos de crédito rural com recursos controlados caiu 3,2% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período de 2025, indicando possível retração na demanda por crédito.



