Próxima Copa pode custar US$ 2 bi em direitos nos EUA
Copa 2030/34: direitos nos EUA podem chegar a US$ 2 bi

O próximo ciclo de direitos para a Copa do Mundo poderá custar entre US$ 1,5 bilhão e US$ 2 bilhões somente nos Estados Unidos. A estimativa feita por executivos de mídia do país também considera a possibilidade de a FIFA negociar conjuntamente os pacotes em inglês e espanhol para as edições de 2030 e 2034. Se confirmada a projeção mais alta, o valor superaria em mais de duas vezes os US$ 485 milhões pagos pela Fox (inglês) e os US$ 600 milhões desembolsados pela Telemundo (espanhol) para o torneio deste ano.

Escalada global dos direitos

O movimento acompanha uma escalada global do valor comercial dos direitos da FIFA. Um salto de US$ 2,4 bilhões, em 2010, para US$ 4 bilhões este ano. A Copa do ciclo de US$ 13 bilhões colocará à prova as teses sobre o futuro da mídia esportiva.

Novos players na disputa

É possível que essa disputa também ganhe uma configuração diferente. Segundo Alex Sherman, da CNBC, Netflix, Disney e YouTube estão interessados em desafiar a Fox pelos direitos de transmissão nos EUA. A Amazon, que já possui os direitos da Champions League no Reino Unido, também pode entrar na concorrência. A movimentação revela uma mudança relevante na geografia dos direitos esportivos. A disputa deixa de envolver apenas empresas tradicionalmente associadas à televisão e passa a incluir plataformas cujo negócio depende da expansão de ecossistemas digitais, dados e relacionamento direto com usuários.

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Recordes de audiência

Quando a CNBC publicou a informação, os recordes de audiência registrados nas fases decisivas da Copa ainda não haviam sido incorporados à equação bilionária. Nos Estados Unidos, 19,48 milhões de telespectadores acompanharam pela Fox Jude Bellingham despachar a Noruega, com pico próximo de 25 milhões durante a prorrogação. O número ficou próximo dos 18 milhões de britânicos que viram a classificação inglesa pela ITV. Na semifinal contra a Argentina, a audiência da BBC atingiu 24 milhões de telespectadores, garantindo ao canal uma participação de 85% entre todos os espectadores de televisão que assistiam à partida no Reino Unido. No Brasil, a CazéTV estabeleceu uma nova marca para uma live do YouTube ao registrar mais de 24,2 milhões de aparelhos conectados durante a vitória da Espanha sobre a França na primeira semifinal.

Recado da FIFA ao mercado

Os números ajudam a explicar por que o Financial Times apontou, recentemente, que a audiência “excepcional” desta Copa envia um recado da FIFA ao mercado: não haverá mais descontos nos próximos ciclos de direitos. Durante o torneio, Fox e Telemundo viram suas audiências crescerem 150% e 154%, respectivamente, em comparação com a competição de quatro anos atrás. O FT, porém, faz uma ponderação: embora uma disputa entre serviços de streaming possa elevar ainda mais o preço, o valor final dos direitos americanos continua “difícil de projetar.”

Cenário brasileiro

Por aqui, o movimento aconteceu em direção oposta. A CazéTV desafiou o reinado da Globo, mostrando que a reconfiguração da economia do esporte ao vivo determina múltiplos pontos de controle distribuídos entre plataformas, com monetizações independentes, porém conectadas. Não por acaso, a FIFA considera uma venda aberta ao mercado brasileiro para o próximo ciclo, sem exclusividade, conforme noticiou a Folha de S.Paulo nesta semana. Apesar de partirem de posições diferentes, os dois mercados convergem em uma mesma transformação. O fracionamento da audiência tornou mais difícil imaginar que um único player consiga explorar sozinho todas as possibilidades de um grande evento esportivo.

Direitos como ativos estratégicos

Projeções feitas pela Moffatt Nathanson no primeiro semestre deste ano sugerem que os direitos esportivos corresponderão a 20% e 40% ou mais dos gastos com conteúdo das grandes empresas tradicionais de mídia. Antes da Copa começar, o analista Simon Lane mostrou que Disney e Fox estão entre as companhias mais expostas ao custo dos direitos, representando 41% e 63% de seus gastos com conteúdo, respectivamente. O balanço divulgado pela Disney em maio ajuda a dimensionar essa pressão. Os custos com direitos da ESPN, estimados entre US$ 10,8 bilhões e US$ 11 bilhões por ano, equivalem a aproximadamente 75% das despesas operacionais da empresa.

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Visão de executivo

Na visão do Co-CEO da N Sports, André Barros, a nova dinâmica deve considerar a fragmentação como um fenômeno inevitável e cada vez mais será custoso para um detentor produzir seu evento. “Cada janela tem seu público. E eles não competem, necessariamente.” Barros defende que o valor precisa ser analisado pelo potencial de aproveitamento do ativo em diferentes frentes. “Direitos são muito mais um ativo do que uma linha de custo. A mentalidade precisa ser que o direito não é só 90 minutos.”

Streaming e direitos esportivos

Pesquisa da Ampere Analysis do primeiro semestre projeta que os serviços de streaming investirão US$ 14,2 bilhões em direitos esportivos em 2026, crescimento de 7% em relação ao ano anterior. O Prime Video, o menos cotado entre esses players para disputar a próxima Copa, segundo a CNBC, deve se tornar o maior investidor global em direitos esportivos entre as plataformas, com US$ 3,8 bilhões, superando a DAZN. No total, os serviços de streaming generalistas representarão 44% dos investimentos em direitos esportivos no próximo ano, contra 31% em 2025.

Futuro da mídia esportiva

François Godard, analista da Enders Analysis, avalia que ainda não existe um conflito direto entre emissoras responsáveis pelas transmissões integrais e plataformas dedicadas à distribuição de clipes. Ele, porém, enxerga nesse processo um passo importante para o futuro. “É fácil imaginar o YouTube disputando direitos ao vivo. Esse é um sinal de alerta para a televisão tradicional.” A pulverização dos direitos permanece uma necessidade econômica para maximizar receitas e atender às particularidades de cada mercado. Ao mesmo tempo, plataformas como YouTube, TikTok e, cada vez mais, os próprios criadores deixam de ser vistas apenas como canais complementares para assumir um papel estratégico na descoberta, circulação e valorização do conteúdo.