A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), reconhecida por suas contribuições à agricultura tropical e à transformação do Brasil em potência agrícola, enfrenta desafios estruturais que exigem reformulação urgente, sob risco de perder relevância estratégica. A avaliação é de Pedro de Camargo Neto, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira, ex-secretário de Produção e Comercialização do Ministério da Agricultura e ex-integrante do conselho da Embrapa.
Orçamento comprometido e burocracia
Camargo Neto destaca que a empresa reclama, com razão, da falta de recursos para pesquisa. “O problema é que boa parte do orçamento, que gira em torno de R$ 5 bilhões por ano, está comprometida com folha de pagamento e despesas obrigatórias”, afirma. “Mas há também problemas de burocracia, centralização e gestão.”
Em 2023, ele integrou o Grupo de Estudos Avançados de Aprimoramento do Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária (SNPA), que produziu relatório apontando centralização administrativa, excesso de burocracia, fragilidades na avaliação de desempenho e necessidade de maior autonomia para unidades descentralizadas. O documento também defendeu reformas na governança e na política de recursos humanos.
Diagnóstico reiterado em 2026
Em 2026, estudo da Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Sest), vinculada ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), chegou a conclusões semelhantes: a Embrapa vive um momento de inflexão institucional. O relatório recomenda fortalecer a coordenação estratégica, modernizar a governança, revisar mecanismos de avaliação e incentivos, racionalizar a rede de unidades descentralizadas e preparar a empresa para liderar temas como agricultura sustentável, bioeconomia, digitalização e adaptação às mudanças climáticas.
“Li com atenção o extenso relatório da Sest. Ele basicamente coincide com o diagnóstico de 2023. Concluo que não sou apenas eu, ou mesmo os cinco relatores de 2023, que entendem que a Embrapa enfrenta não uma crise pontual, mas um desafio estrutural de renovação institucional”, afirma Camargo Neto.
Necessidade de descentralização e avaliação
Para o ex-presidente da SRB, a principal palavra é descentralização. “Minha visão é até mais favorável à descentralização do que a apresentada no relatório da Sest. É preciso dar mais autonomia às unidades de pesquisa, mantendo uma orientação estratégica nacional, mas permitindo que as decisões sejam tomadas mais perto dos pesquisadores.”
Ele defende sistemas de avaliação consistentes: “A pesquisa pública precisa chegar ao produtor rural. Quem recebe recursos públicos para fazer pesquisa deve demonstrar resultados concretos. Pesquisa exige criatividade, rapidez e liberdade para errar. Isso não pode ser administrado exclusivamente de Brasília.”
Risco de perda de relevância
Camargo Neto alerta que, se as mudanças não forem feitas agora, a Embrapa pode entrar em processo gradual de perda de relevância, enquanto países como a China ampliam investimentos em pesquisa agropecuária. “Já vimos algo semelhante acontecer com outras instituições de pesquisa no Brasil. O Instituto Agronômico de Campinas, por exemplo, teve enorme importância histórica e perdeu protagonismo.”
Ele também rebate especulações sobre privatização: “Considero essa ideia um equívoco. Estamos falando de pesquisa pública, algo essencial para o desenvolvimento do País. O debate não deve ser sobre privatizar a Embrapa, mas sobre aumentar a eficiência do uso dos recursos públicos.”
Desafios climáticos e tecnológicos
As mudanças climáticas tornam a discussão ainda mais urgente, exigindo novas variedades adaptadas à seca, novas tecnologias genéticas, uso intensivo de ciência de dados e inteligência artificial. “Parte dessas inovações está vindo do setor privado, mas existem áreas em que a pesquisa pública é indispensável, porque envolvem investimentos de longo prazo e interesses nacionais”, conclui.



