Embargo da UE: pecuaristas de MS buscam alternativas à carne europeia
Embargo da UE: pecuaristas de MS buscam alternativas

A um mês do dia 3 de setembro, quando a União Europeia (UE) interrompe as compras de produtos de origem animal do Brasil, os pecuaristas Rafael Andrade Asato e André Bartocci, de Mato Grosso do Sul, vivem uma contagem regressiva. O bloco europeu é destino de apenas 5,8% das exportações brasileiras de carne bovina, mas, nas fazendas dos dois, 100% do rebanho é criado para atender às exigências do mercado europeu.

Em entrevista ao g1, os dois produtores relatam investimentos feitos ao longo de mais de 20 anos para cumprir as normas da UE. "Investimos durante anos para atender à União Europeia", afirma Asato. "É frustrante. Faz mais de 20 anos que rastreio gado para exportar carne para a Europa", completa Bartocci.

O que motivou o embargo

A decisão europeia foi tomada depois que a UE alegou que o Brasil não segue as regras do bloco sobre o uso de antimicrobianos na pecuária. Segundo a Comissão Europeia, não foram encontradas irregularidades na carne nacional, mas o controle brasileiro sobre o uso dessas substâncias foi considerado insuficiente.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Antimicrobianos são usados para tratar e prevenir infecções em animais. Parte desses medicamentos também pode ser empregada como promotor de crescimento, prática que a legislação europeia restringe. O embargo está marcado para começar em 3 de setembro, e, mesmo que o bloco volte a autorizar o Brasil, a retomada não será imediata.

Bartocci, que preside a Câmara Setorial da Carne Bovina, órgão consultivo do Ministério da Agricultura, afirma que foi informado em reunião com integrantes da pasta, há duas semanas, de que a Europa não volta a comprar carne bovina do Brasil antes de dois anos. O prazo está ligado ao ciclo de vida do boi: o entendimento é que um animal que comece hoje a seguir os novos protocolos levaria cerca de 24 meses para ficar pronto dentro dos padrões exigidos.

Procurado pelo g1, o escritório de Saúde e Bem-Estar Animal da Comissão Europeia não confirmou o prazo de dois anos, mas disse que a retomada "dependerá dos ciclos de produção dos animais". O Ministério da Agricultura não respondeu ao pedido de entrevista.

Corrida contra o relógio

Desde maio, quando a UE anunciou a decisão, o governo brasileiro negocia com os europeus para reverter a medida. Em junho, o Ministério da Agricultura publicou novas regras para atender às exigências do bloco, mas, até agora, os europeus não recuaram. Enquanto isso, os exportadores correm para embarcar a carne antes de 3 de setembro.

Asato, diretor da Fazenda Campanário, calcula que, se conseguir vender os animais para o frigorífico até 21 de agosto, ainda recebe o prêmio pago pelo boi padrão Europa. "A partir do dia 22, esse prêmio deixa de existir", diz.

Esse prêmio é o adicional pago por um boi criado conforme as normas da UE em relação à cotação nacional. "Geralmente um boi Europa recebe até 10% de premiação", afirma Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do mercado de pecuária do Cepea. A explicação está no perfil da exportação: a UE compra cortes nobres, como filé-mignon e alcatra, e exige controles mais rígidos, incluindo a rastreabilidade individual de cada animal.

"Aqui na fazenda, cada animal recebe um brinco com chip na orelha e isso permite acompanhar toda a vida dele, incluindo o registro de cada medicamento aplicado, o manejo realizado e a dieta", explica Asato.

Mudanças na rastreabilidade

Os dois pecuaristas afirmam que não usam antimicrobianos em seus rebanhos há anos porque exportam pela Cota Hilton, modalidade de exportação de carnes nobres com tarifa reduzida que proíbe o uso dessas substâncias durante toda a vida do animal.

Bartocci observa, porém, que a maior parte da carne enviada à Europa não é de Cota Hilton, mas da lista Trace, na qual o produtor precisa comprovar que não usou antimicrobianos apenas nos últimos 100 dias de vida do animal. "Agora vai mudar, todo o ciclo vai precisar de comprovação", diz.

Planos para sobreviver ao embargo

Sem expectativa de retomada rápida, os pecuaristas já redesenham suas estratégias. Asato conta que conversa com frigoríficos próximos para tentar não perder o prêmio do boi Europa. A ideia é encaixar o gado de padrão europeu em programas de exportação para os Estados Unidos ou em protocolos de carnes nobres para o mercado interno, como o da carne Angus.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

"Temos uma conversa bem aberta com os frigoríficos porque isso impacta não só a nossa margem de lucro, como a margem deles também", afirma. Ele também estuda redirecionar parte da produção para a China, aproveitando cotas de importação com isenção de tarifa no próximo ano. Como o transporte para a China demora entre 60 e 70 dias, a ideia é retomar os abates com força na segunda quinzena de setembro para a carne chegar ao destino em janeiro.

Caso o mercado não pague um valor adicional pelo rebanho, Asato diz que vai abandonar os protocolos europeus. "Não faz sentido eu agregar um custo de rastreabilidade, de chip, se eu não tiver um prêmio por isso", afirma.

Bartocci pretende manter a rastreabilidade por pelo menos seis meses enquanto acompanha as negociações entre o governo brasileiro e a UE. Para ele, quando o bloco voltar a importar carne do Brasil, quem já estiver preparado terá vantagem nos contratos. Ele também avalia desacelerar o ciclo de produção: em vez de terminar os animais em seis meses, passaria a terminá-los em dez, para esperar a reabertura do mercado europeu.

Se o bloqueio se prolongar, porém, ele cogita voltar a usar antimicrobianos como a monensina, substância permitida no Brasil e em diversos mercados, mas proibida pela UE como promotora de crescimento. Segundo ele, a medida aumentaria a produtividade e ajudaria a recuperar parte da rentabilidade perdida.

Frustração e acusação de protecionismo

Bartocci afirma que o veto frustra um momento em que o Brasil negocia para ampliar o acesso a mercados internacionais. "A gente tinha tudo para acessar os grandes mercados hoje. Então esse veto da Europa frustra", diz. "Estar no mercado europeu funciona como um selo de qualidade para abrir portas em outros mercados de elite, como o Japão e a Coreia do Sul", acrescenta.

Para os dois pecuaristas, a decisão da UE vai além dos antimicrobianos e tem motivação política, funcionando como um pretexto comercial depois do acordo entre Mercosul e União Europeia. "Eu realmente acho que a questão dos antimicrobianos é um pano de fundo. É uma estratégia para segurar essa carga", afirma Bartocci. "A gente acredita que é algo parecido com o que aconteceu com a imposição de cotas por parte da China. É uma questão política, é um protecionismo dos produtores", acrescenta Asato.

O pecuarista também questiona a manutenção de outros países na lista de fornecedores da UE. "Não faz muito sentido você ter países como o Irã [na lista de fornecedores] e tirar o Brasil", argumenta.