Produtora cultiva baunilha de R$ 6 mil/kg no Cerrado com polinização manual
Baunilha de R$ 6 mil/kg é cultivada no Cerrado com polinização manual

Uma das especiarias mais valorizadas do mundo, a baunilha começa a ganhar espaço em Mato Grosso do Sul. Em Campo Grande, a produtora rural Miska Thomé aposta no cultivo da planta em ambiente protegido e no uso de controle biológico para ampliar a produção com menor utilização de defensivos agrícolas. Apesar do alto valor comercial — o quilo pode chegar a R$ 6 mil —, a cultura ainda é considerada rara no Brasil, pois exige manejo intensivo e enfrenta desafios que dificultam sua expansão, desde a produção de mudas até a polinização e o desenvolvimento das plantas.

Polinização manual: um desafio diário

A baunilha pertence à família das orquídeas e depende de um processo delicado para produzir frutos. Como os polinizadores naturais da espécie, originária do México, não existem no Brasil, cada flor precisa ser polinizada manualmente. Além disso, a flor permanece aberta por apenas um dia.

Conforme a explicação da produtora Miska Thomé, o procedimento funciona da seguinte forma: começa com a localização do pólen na estrutura masculina da flor; a estrutura masculina é então pressionada diretamente contra a parte feminina por cerca de cinco segundos, garantindo a transferência efetiva do pólen; depois a flor seca e a haste passa por uma metamorfose, desenvolvendo-se até se transformar na fava.

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“É uma das especiarias mais caras. E hoje eu entendo por quê, porque é um processo todo manual. Eu resolvi fazer aqui um viveiro de baunilhas, porque eu tinha ganho de uma amiga, uma muda. Coloquei na minha casa, ela tomou conta do muro”, explica a produtora.

Adaptação ao Cerrado e controle biológico

Em um viveiro de Campo Grande, cerca de 70 mudas são cultivadas para avaliar a adaptação da baunilha às condições climáticas do Cerrado sul-mato-grossense. Segundo a engenheira agrônoma Letícia Oliveira, que acompanha a produção, o cultivo protegido busca reproduzir o ambiente natural da espécie.

“É necessário um substrato rico em matéria orgânica, suporte para o crescimento da planta e condições que permitam a polinização, irrigação e adubação”, afirma.

Além do ambiente controlado, o manejo utiliza controle biológico para reduzir a incidência de pragas. Em vez de produtos químicos, o sistema aproveita inimigos naturais. “As aranhas são hoje um dos inimigos naturais mais eficientes dentro do cultivo. Elas ajudam no controle de pragas como percevejos, mariposas e lagartas”, explica a engenheira agrônoma.

Gargalos na produção de mudas e processo de cura

Outro desafio para ampliar a produção está na oferta de mudas. De acordo com Letícia, ainda há dificuldade para encontrar plantas com origem conhecida e qualidade genética, fatores que influenciam diretamente a produtividade e a adaptação da cultura.

Após a colheita, as favas passam por um processo de cura, etapa considerada essencial para definir o aroma e a qualidade da baunilha. O procedimento inclui períodos de secagem ao sol, descanso à sombra e armazenamento em ambiente fechado por vários meses.

Depois da polinização, as vagens levam cerca de nove meses para atingir o ponto de colheita. Durante esse período, fatores como temperatura, umidade e luminosidade precisam permanecer controlados para garantir o desenvolvimento da planta. Mesmo diante dos desafios, a expectativa é de crescimento da cultura em Mato Grosso do Sul.

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