EUA revogam visto da embaixadora brasileira em Washington
EUA revogam visto de embaixadora brasileira

O governo dos Estados Unidos revogou o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, conforme apurou o Valor. A medida, tomada em meio a um clima de crescente tensão diplomática entre os dois países, foi comunicada ao Itamaraty na terça-feira (4). A revogação, que atinge a principal representante do Brasil nos EUA, é vista como um gesto de forte descontentamento do governo americano com o posicionamento brasileiro em questões internacionais.

Contexto da medida

A revogação ocorre após uma série de atritos entre os governos de Joe Biden e Luiz Inácio Lula da Silva. Nos últimos meses, o Brasil adotou posturas divergentes em temas como a guerra na Ucrânia e a crise na Venezuela. Fontes diplomáticas ouvidas pelo Valor afirmam que a decisão americana é uma resposta direta à aproximação do Brasil com Rússia e China, além das críticas públicas de Lula à política externa de Biden.

O Itamaraty confirmou o recebimento da notificação, mas não comentou oficialmente. Nos bastidores, diplomatas brasileiros classificaram a medida como "inusitada" e "preocupante", já que a revogação do visto de um embaixador é uma ação rara entre países aliados. O último episódio semelhante ocorreu em 2019, quando o governo Trump revogou o visto da então embaixadora venezuelana em Washington.

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Impacto nas relações bilaterais

Especialistas avaliam que a revogação pode afetar diretamente a agenda bilateral, que inclui temas como comércio, meio ambiente e cooperação militar. O Brasil é um dos maiores parceiros comerciais dos EUA na América do Sul, com um fluxo de comércio bilateral que superou US$ 75 bilhões em 2025. A medida também pode complicar as negociações em curso para um acordo de cooperação em energia limpa e mineração.

Em nota, o porta-voz do Departamento de Estado, Matthew Miller, disse que "os Estados Unidos reservam o direito de tomar medidas apropriadas para proteger seus interesses de segurança nacional". Ele não detalhou os motivos específicos, mas afirmou que "a decisão foi tomada após uma revisão cuidadosa das circunstâncias atuais".

Reações no Brasil

No Congresso brasileiro, a oposição e a base aliada reagiram de forma distinta. Parlamentares da oposição cobraram uma resposta firme do governo Lula, enquanto aliados pediram cautela. O senador Cid Gomes (PDT-CE) afirmou que "o Brasil não pode se submeter a pressões externas, mas também não deve agir com hostilidade desnecessária". Já o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) usou as redes sociais para criticar a política externa do governo, dizendo que "a revogação é um reflexo do isolamento internacional do Brasil"

Diplomatas brasileiros, sob condição de anonimato, afirmaram que a embaixadora Viotti permanece em Washington, mas sem status diplomático pleno, o que limita sua atuação. Ela deve retornar a Brasília nos próximos dias para consultas, segundo fontes do Itamaraty.

Histórico de tensões

As relações entre Brasil e EUA já vinham de um período de estremecimento. Em fevereiro, Lula criticou a política de Biden para a Ucrânia, comparando a situação ao genocídio em Gaza. Em maio, o Brasil se absteve em uma votação na ONU sobre sanções à Rússia, contrariando a posição americana. Além disso, a visita do chanceler russo, Sergei Lavrov, a Brasília em junho foi vista como um afronta aos interesses americanos.

A revogação do visto ocorre em um momento delicado, quando o Brasil busca mediar o conflito na Venezuela e sediar a cúpula do G20 em novembro. Analistas apontam que a medida pode ser uma tentativa de pressionar o Brasil a mudar sua postura antes da reunião de líderes.

O que pode acontecer agora

O governo brasileiro pode adotar medidas recíprocas, como revogar o visto do embaixador americano em Brasília, ou buscar uma solução diplomática. O Itamaraty deve convocar o embaixador dos EUA para explicações. A decisão também pode impactar a visita que Biden faria ao Brasil em dezembro, ainda não confirmada.

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Especialistas em direito internacional apontam que a revogação do visto de um embaixador é permitida pela Convenção de Viena, mas é uma prática rara e geralmente considerada hostil. A medida pode levar a uma escalada retórica, mas é improvável que resulte em ruptura total das relações, dado o peso econômico e político dos dois países.

Próximos passos

A embaixadora Viotti deve retornar a Brasília ainda esta semana. O governo Lula deve emitir uma nota oficial nos próximos dias. Enquanto isso, a comunidade diplomática em Washington observa com apreensão, temendo que a medida possa afetar outras cooperações bilaterais.

O Itamaraty, em comunicado interno, orientou os diplomatas brasileiros a manterem a calma e evitarem declarações públicas. A chancelaria avalia que a situação pode ser contornada por canais diplomáticos, mas admite que o momento é de "incerteza" nas relações bilaterais.